quinta-feira, 24 de maio de 2012

UMA ODE DE RICARDO REIS: UMA CHESTERTONIANA MÉTRICA SALTITANTE DE UM CONTEÚDO SOMBRIO


Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis
12-6-1914

No início da década de 90, fui apresentado a esse poema pela expressiva leitura ou recitação que dele fizera meu amigo Sérgio Marcone, quando o visitava em sua casa. Era uma leitura apaixonada, contagiosa mesmo, como se ele tivesse a certeza absoluta de que só os imbecis babando nas gravatas seriam incapazes de perceber a importância  daquela grata descoberta e, ao mesmo tempo, em meio àquela alegria, conseguia manter a sobriedade no dizer os versos, sem derramamentos ou dramatizações excessivas dos declamadores de caixotes de batatas, ele percebia, afinal, que o poema dispensava esses recursos e bastava-lhe seguir rigorosamente a pauta musical.
Eu, força é dizer, por inveja daquela leitura, memorizei o poema, e o mais importante é aquele momento  ter  revelado a perfeição da poética pessoana e reforçado ainda mais meu interesse pela poesia em geral.
Particularmente não sinto entusiasmo algum pela filosofia subjacente a essa bela construção verbal, com seus subjuntivos e imperativos explorados com rara graça, ou seja, não compartilho com a idéia de que a percepção da morte seja uma autorização para que se não viva e, igualmente, para que se não pense, que qualquer ação é inútil, que é também sem importância a escolha do bem e do mau, já que vamos morrer,  como de resto está presente em outros grandes versos: “Não há tristezas/nem alegrias/ na nossa vida./ Assim saibamos,/ sábios incautos,/ não a viver” ou “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” ou “Não tenhas nada nas mãos/nem uma memória na alma,//que quando te puserem/nas mãos o óbolo último,//ao abrirem-te as mãos/nada te cairá”.
Mas, como resistir ao “Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,/nem invejas que dão movimento demais aos olhos”? Ou ainda à bela imagem do “Pagãos inocentes da decadência”? E mais, não há resistir às alternâncias temporais presentes nas duas últimas estrofes, as quais se manifestam por meio de um dos mais bem elaborados paralelismos de imagens da nossa língua, cujos versos se refletem mutuamente, como num espelho, invertendo as imagens do objeto posto diante de si mesmo, ou por outra, os dois primeiros versos de cada estrofe, pela técnica da reiteração, correspondem inversamente aos dois primeiros da estrofe seguinte:

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova”:
.............................................................................................
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
 eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

                
E, como se não bastasse, uma tão bela quanto melancólica despedida:

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
 pagã triste e com flores no regaço.

Mesmo na primeira poesia de Bruno Tolentino,  cercada pelo existencialismo ainda em moda na década de 50 e 60, a ricardiana visão de mundo, algo imobilista, ameaçava esboçar-se:

Não há culpas no tempo, lento furto
de hipóteses tramando seu embalo
de nadas. Resta, nosso, o testemunho,
 mas tão esconso desce em seu trajeto
e a ramagem dos cerros vai tão fundo
que nos desentendemos:
breve ou eco,
não estamos aqui, cumpriu-se, ardemos.

(Anulação, in Anulação e outros reparos)

(É de se reparar como o prolongamento sintático reproduz uma queda que parece infinita, com a sua recusa em dar um ponto final, apoiando-se tão-somente em vírgulas(Resta, nosso, o testemunho,), que representam barreiras insignificantes para uma decida tão violenta quanto decidida, para ter sua velocidade retomada pelas conjunções adversativas e aditivas que respectivamente iniciam o quarto e o quinto versos.)
Se digo que ameaçava a se esboçar, é porque numa mesma obra deparamos outros poemas que, se por um lado ainda se mostram de algum modo presos ao acento existencialista da época, por outro lado, a vitalidade dos versos, ou sua sensibilidade “tocada em nervos”, esboçava também sua denúncia:

Aquela ninfa, aquele zéfiro e eu
hesitamos demais em dar o salto
e quando tudo desapareceu

na curva da colina azul-cobalto,
ficamos mendigando a luz no alto:
três girassóis olhando para o céu..

(Elegia obsessiva, III, primeiro movimento, idem)

Versos esses que encontram sua correspondência com “e a máquina do mundo, repelida,// se foi miudamente recompondo/ enquanto eu, avaliando o que perdera,/seguia vagaroso, de mãos pensas.” de Drummond, até que décadas depois o ameaçador imobilismo é deixado de lado como se nunca tivesse existido:

a pior traição é a que se faz
quem vendo a luz sangrar fecha a janela.

(Imitação da música, 3, O mundo como idéia)

Como o mostram o poema de Reis e o poema “Anulação” de Tolentino, que é de 1962, poesia e niilismo ou poesia e imobilismo são elementos incompatíveis: o conteúdo pode ser ou niilista ou imobilista, mas os versos jamais o serão, algo que Chesterton tinha observado na poética de Byron, um conteúdo sombrio com métrica saltitante. É essa tensão entre verso e conteúdo, uma esquisita harmonia que se forma pelos contrastes, que tornam tão bons esses versos, além do mais, se o conteúdo apresenta uma proposta incompatível com a realidade, o sentimento motivador é agudamente verdadeiro, e a vida do espírito só tem a ganhar com isso.