segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MANUEL BANDEIRA- Sophia de Mello Breyner Andresen



Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
“As três mulheres do sabonete Araxá”
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do “Trem de ferro”
E o “Poema do beco”

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado


Em princípio, poderíamos dizer que é um poema com versos livres: sem regularidade métrica, estrófica, rimas poucas e que parecem ocasionais etc. Porém, se há realmente pretensão de ser verso livre, ou seja, se considerarmos que tal questão de fato preocupou a autora que talvez estivesse pouco se lixando para isso, revela aquela dificuldade que desafiou o próprio homenageado até finalmente conseguir tal verso, que é o “sentimento de medida”.
Tal sentimento já se mostra nos primeiros versos. Lembram os antigos poemas portugueses(“Barcas mandou lavrar/ e no mar as deitar”; “Vi eu, mia madr’, andar/as barcas en o mar,” “Lá vem a nao Catharineta/ que tem muito que contar/ ouvide agora, senhores,/uma história de pasmar.”). Lembram também os primeiros versos de O rio, de João Cabral, cuja obra ela conhecia: “Sempre pensara em ir/ caminho do mar”. O primeiro verso(Este poeta está), por exemplo, tem a mesma acentuação, na primeira e na quarta, que é um dos esquemas previstos para um hexassílabo. Com o acréscimo do seguinte(do outro lado do mar), podem emendar-se, sonoramente é claro, com “Para os bichos e rios/ nascer já é caminhar.” Há diferenças na acentuação do segundo verso de ambos, mas a música permanece e se estende até o quarto, mesmo com medidas aumentadas. Mas devo advertir que não é necessariamente algo deliberado, pois nesse tipo de construção e com esse tipo de rima, muitos poemas podem vir à tona. É como tentar comparar um poema de cordel com outro poema de cordel específico quando lembra vários.
O senso de medida se mostra de forma mais clara a partir do quarto verso(E digo ao silêncio os seus versos devagar), diga-se, um verso bastante inspirado e sonoramente muito agradável. Alexandrino ou dodecassílabo, há alguma regularidade. Andamento ternário até a oitava, após a qual há um repouso rítmico como uma preparação para “devagar”, onde há uma pausa obrigatória e o verso parece curvar-se, após alguma distensão, ou simplesmente, como é mais adequado, parece perder a velocidade da elocução. 
Além de mais alguns versos medidos(“Nas solenes penumbras do silêncio”; “Me sentava nos bancos pintados de fresco”), há algumas rimas(“relembrando/quando”; “recitava/espantava”) e principalmente reiterações rítmicas(“Pelos sombrios corredores da casa antiga/Nas solenes penumbras do silêncio”; Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira/ Quando/ me sentava nos bancos pintados de fresco”). É verso livre que tem algo de um canto improvisado por um músico muito hábil, para quem é impossível não conceber uma bela melodia.
Eis uma composição poética sobre um poema, não sobre a poesia ou sobre o fazer poético que geralmente cheira a puro onanismo literário. E justamente por ser uma composição sobre um poema específico, principalmente aquele poema que faz parte do universo afetivo de quem fala sobre ele, é que o artificialismo discursivo abre espaço para a emoção pensada.
Mesmo com tantos truques, com tanto “sentimento de medida” ou justamente por causa disso, lemos uma belo poema com algo de crônica sentimental, que tem uma voz pessoal muito perceptível, um diário íntimo contaminado pela crítica literária,  uma espécie de Casa grande & senzala escandida(“Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar:  é outro meio de procurar-se o “tempo perdido”. Outro meio de nos sentirmos nos outros – nos que viveram antes de nós; e em cuja vida se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos...”) e que tem uma das imagens mais palpáveis que alguém pode conceber, e de uma objetividade tão crua quanto é intensa sua sugestão pictórica que beira o delírio mais desconcertante; um delírio no qual um sentimento tão afetivo – com o propósito de mostrar a relevância sentimental do objeto querido –  se traduz numa violência extrema de um filme de Tarantino:

As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava



Esses versos encontram, na última estrofe, um correspondente - em termos pictóricos, mais domesticado - porém não menos belo em

Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado


Há nesse poema um discurso que se desenvolve com a naturalidade de quem sabe qual a palavra adequada para expressar um sentimento específico, e de tal modo que palavra e matéria se confundem tornando-se uma imagem muito nítida. É a naturalidade de uma boa conversa, clara e bem educada, mas que só pode ser lograda por quem tem o domínio pleno do mecanismo poético-verbal.
Podemos estender, a título de exemplo, essa naturalidade aos poemas mais arrebatadores de Bruno Tolentino como “Noturno”,“Ao divino Assassino”, “Missa do sétimo dia”, “A venda” , “Santa Reparata deixa Florença” ou os que compõem A imitação do amanhecer, i.e., àqueles poemas que atingem os sentidos mais imediatos, que não teriam tal efeito não fosse o domínio dos meios e das próprias emoções que os fundamentam ou lhes servem de matéria. E graças a essas qualidades que “Manuel Bandeira” emociona. Faz com que o leitor perceba o quanto um poema pode tocar a sensibilidade de alguém por meio da exibição da anatomia da emoção de quem passa por uma experiência semelhante.
Tudo ao redor passa a fazer parte daquele poema, poema esse que passa a ser algo indistinguível de uma experiência pessoal mesmo que seu conteúdo seja diverso dessa experiência; tudo o absorve, até que por fim se torna o que é muito bem traduzido por este verso: “E foram parte do tempo respirado”. É um arrebatamento dos sentidos que se consegue pela elaboração intelectual. Só mais uma coisinha que estava tentando dizer desde o início deste texto, mas não achava um espaço em que pudesse encaixar: Sophia de Mello era muito bonita.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

CULTURA SEM LIMITES

"A meta do projeto Cultura sem limites é aprimorar um pensamento que se proponha a ver o Brasil dentro da perspectiva da tradição ocidental. Para cumprir este objetivo, elaboramos seis cursos de média duração com professores e palestrantes que analisam tópicos instigantes do mundo contemporâneo e que lançam novas bases para uma cultura atenta ao passado, ao presente, mas, principalmente, ao futuro. "

Nelson Rodrigues, Dostoiévski, Goethe, oficina de cinema com Bráulio Mantovani... tudo isso e muito mais aqui e aqui(programação)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

POEMA DE LOS DONES, de Jorge Luis Borges




Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.





Os contos de Jorge Luis Borges são os mais impressionantes da literatura. Na verdade, acabo dizendo isso a respeito de tudo de que gosto. (Os contos de Relíquias da casa velha de Machado de Assis são... Os contos de Murilo Rubião são... Os..) Porém, quando me deparo com sua poesia, acabo cometendo o mesmo excesso. (A poesia de Jorge Luis Borges é...) De qualquer maneira, minha preferência é pela poesia, mesmo quando os contos em questão são os que fazem parte do volume Ficciones ou quando se trata de “There are more things” de El libro de arena, dedicado a Lovecraft, e que é um dos melhores contos de terror que já li.
Nessa narrativa, ao invés de se descrever em detalhes a aparência horrenda e sobrenatural do dono de um solar misterioso, essa é sugerida pela menção ao formato inusitado das mobílias(Ninguna de las formas insensatas que esa noche me deparó correspondía a la figura humana o a un uso concebible.). Até mesmo o formato convencional de partes da casa parece agravar, pelo contraste, as especulações sobre essa mesma aparência. (Esa escalera, que postulaba manos y pies, era comprensible y de algún modo me alivió.) Ademais, o parágrafo final emula o igualmente assustador “Garra do macaco” de J. J. Jacobs.
Diria também que seus contos apresentam uma propriedade da poesia que muito admiro: sensação de simultaneidade. Elementos de várias naturezas, diferentes cenários, teorias ocultistas, teológicas, filosóficas e toda sorte de diversões intelectuais que ocupam o espírito de detetives se desenvolvem lado a lado com alguma trama e toda essa maravilhosa barafunda se prolonga na sua obra poética, como podemos notar em “Ajedrez”, um soneto que trata da predestinação,  e que figura no livro El hacedor(1960)  e do qual também faz parte “Poema de los dones”, acima estampado, e que deve ser um dos poemas mais sentimentais(no bom sentido) a compor o volume. É algo como uma versão “cabeça” de “Meus oito anos” de Cassimiro de Abreu ou “A canção de exílio” de Gonçalves Dias, mas dentro da qual(perdoai-me o abuso da liberdade anatômica) “também bate um coração”. E bate mesmo.
Esse poema tem algo de narrativa. Visualizamos alguém percorrendo uma biblioteca, tateando esse espaço, caminhando com a mesma lentidão e hesitação da música dessas engenhosas quadras. Vamos a alguns exemplos.
Na abertura da segunda estrofe, “i” de libros se prolonga no verbo seguinte(hizo), ou arrasta-se até ele; ou ainda, uma longa caminhada e o roçar as inúmeras lombadas são bem ilustrados pelos nove substantivos que regem um único verbo(brindan) que só aparece no verso final. (É uma estrofe, aliás, ilustrativa e que diz todo o poema. A única coisa que resta ao cego-narrador é apalpar as lombadas e imaginar o que guarda cada uma delas e listar mentalmente os assuntos aos quais não pode mais retornar senão pela memória: “...unos ojos sin luz, que sólo pueden/ leer en las bibliotecas de los sueños/ los insensatos párrafos...”. Por isso, nenhuma teoria por trás desses assuntos é desenvolvida ou discutida em todo o poema. Há apenas uma listagem.) “Lento en mi sombra, la penumbra hueca” é também um belo exemplo de verso imitativo: o intervalo quaternário, mais a pausa natural, aumentam a distância entre as assonâncias. (“sombra” e “penumbra”) Uma fileira de vogais ou de sons vocálicos têm um papel muito importante na quarta estrofe e parecem se prolongar indefinidamente, conferindo ao ambiente uma sensação de amplitude comumente intensificada pela própria cegueira ou por um lugar escuro: “de esta ALta y HONda biblioteca ciega.” Essa sensação de amplitude espacial é também o efeito causado pela abertura da penúltima estrofe, mas dessa vez pelo recurso à antropomorfização(lentas galerias), também presente no verso citado anteriormente(biblioteca ciega).
Nesse poema, por fim, não há um abismo entre o mundo intelectual e a vida propriamente dita. (Como se isso tivesse existido em algum momento!) Pelo contrário, são dois elementos que se confundem a tal ponto que sempre pareceram identificar-se um ao outro. Mais ainda, o que é normalmente visto como mero cerebralismo é justamente o que mais reforça a natureza emotiva do poema e faz com que nos identifiquemos com aquela situação narrada. A enumeração enciclopédica da quinta estrofe, por exemplo, explicita de forma eloqüente uma privação que é também ilustrada pelo recurso ao mito de Midas, recordado em versos tão arrebatadores quanto o melhor poema de amor ou uma elegia: “De hambre y de sed (narra una historia griega)/ muere un rey entre fuentes y jardines”.  Esses versos, cuja música é tão suave aos ouvidos e tem a qualidade do melhor adágio, jamais poderia sair da cabeça de um Dr. Spock argentino.