terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sextina em conversa (Sestine mit interview) – Oskar Pastior: a arte da fuga

Trad. Ivo Barroso

In Poesia sempre, número 4, agosto 1994, pp. 92-95

ah sim já estive muito uma segunda vez         
em roma – embora já estivesse também
uma terceira ou quinta vez. quando é que esteve
lá pela última vez? não poderei ao certo
precisar – quando foi que primeiro lá fui.
mas você ainda esteve desde então em roma?

não a primeira vez que ainda estive em roma
porém não tantas quanto da segunda vez –
mas foi quando parti antes da vez que fui.
então sempre você da última vez também
pensou partir de roma? eu sempre penso é certo
exatamente às vezes: se você esteve

e de lá tantas vezes partiu como esteve
sim ao certo também que nunca esteve em roma.
mas você na verdade sempre sabe ao certo
quando às vezes e até quantas vezes de vez
que você deveria ou queria também
partir quando ninguém partia quando fui?

pois quando sim pela primeira vez me fui
ainda não sabia então. mas sei que esteve
pela terceira vez várias vezes também
e não partiu nem quando era freqüente em roma
ninguém partir? não! foi só na segunda vez
e isto ainda às vezes nem eu sei ao certo

pois eu estive sim várias vezes ao certo
em roma que talvez de lá nunca me fui
porque nenhuma vez estive uma só vez
de partida. mas diga lá você se esteve
contudo de verdade alguma vez em roma?
de fato – estive  desde sempre também

e  permanentemente sem cessar também
a segunda e terceira vez estive ao certo
assim como de novo a última vez em roma
estive quando já ninguém partiu eu fui.
mas diga-me se em Roma a última vez que esteve
muitas vezes você estava uma segunda vez?

oh sim estive às vezes a primeira vez
em roma antes porém sempre raro lá fui
também estava escura a última vez em roma.

Esta é a tradução de um poema alemão empreendida com muita graça por Ivo Barroso que não apenas traduziu mas realizou aquele milagre da tradução que é o de dar a impressão de que o texto saiu diretamente da língua de chegada, ou seja, o bom tradutor ao realizar seu trabalho automaticamente faz surgir seu próprio texto, por outra, o texto que sempre quis escrever. (Em tempo, não sei alemão e assim não  posso tecer maiores juízos sobre a tradução em si, o grau de fidelidade etc, mas não restam dúvidas que o trabalho final é muito bem feito.)
Érico Nogueira, por exemplo, realiza suas traduções da mesma forma como realiza seus próprios poemas: sem medo de ser feliz, e não costuma fazer segredo de suas fontes, pelo contrário, explicita-as e sente-se tanto realizado quanto mais se aproxima delas. Recentemente, para a Dicta 8, traduziu o trecho “als grober Muskelmann” do poeta Durs Grübein como  “um bruto Schawarzeneger” num bem humorado jogo de equivalência de fazer inveja a qualquer poeta ou tradutor, e isso é apenas um trecho de um verso...
O poema de Oskar Pastior reproduz uma verdadeira conversa entre surdos. As perguntas nunca encontram respostas, ou estas se limitam a pegar carona no  léxico daquelas para dizer outra coisa, no limite entre o ato consciente de quem não quer responder a uma indagação por algum motivo e o automatismo do método, mas que serve ao propósito de que nada se esclareça ao mesmo tempo em que se procura dar a impressão de que se está atento ao que diz o interlocutor.
O automatismo do método está justamente no belo giro lingüístico, na variação sintática que se faz em torno do mesmo universo vocabular: “mas sei que esteve/ pela terceira vez várias vezes também/e não partiu nem quando era freqüente em roma/ninguém partir? não! foi só na segunda vez/e isto ainda às vezes nem eu sei ao certo//pois eu estive sim várias vezes ao certo/ em roma que talvez de lá nunca me fui/porque nenhuma vez estive uma só vez/ de partida.”
Parece a tática do mentiroso que numa situação de aperto diante de tantas perguntas e das várias formas de fazê-las para se arrancar uma verdade, ou responde reelaborando a mesma pergunta ou repete-a ipsis litteris para ganhar tempo mudando apenas a entonação ou, como é o caso, usa do mesmo vocabulário para conduzir o curioso à confusão, na esperança de que desista  e mude de conversa, e o uso da sextina na forma original com seus malabarismos, e na condição de uma forma que se desdobra pela repetição obsessiva, é o meio adequado para representar esse giro, uma vez que as seis palavras que encerram cada verso da primeira estrofe são as mesmas que aparecem nas seguintes mudando apenas a disposição (1: vez\ 2: também\3:esteve\4:certo\5 fui\6:roma \6  1 5 2 4 3\ 3 6 4 1 2 5\5 3 2 6 1 4\ 4 5 1 3 6 2\ 2 4 6 5 3 1\ 1 5 6).  Situação parecida se percebe nas várias formas com que a personagem identificada apenas como Sem Nome não responde às perguntas do prisioneiro russo Nikolai na engenhosa peça Fuga em dó menor de Leonardo Valverde(NIKOLAI (ríspido):O que você quer? Por que não fala logo o que veio fazer aqui  e me deixa em paz? SEM NOME: Mas o senhor não está em paz... (...)NIKOLAI: Como você entra nesta cela sem saber por que fui condenado? SEM NOME: Eles nunca me dizem a causa, tenho sempre que descobrir. NIKOLAI:Então você trabalha para eles... SEM NOME: Depende de quem o senhor chama por eles.).
E quanto às minúsculas? Antes discutamos um pouco a função das maiúsculas. As maiúsculas servem ao propósito de dar ênfase, de determinar um ponto  de partida, por exemplo, indicar abertura de um período ou de um parágrafo; também dizem o grau de importância do objeto referido ou o identifica. Ou seja, estas indicam as várias formas pelas quais alguém pode se orientar num discurso. Por outro lado, as minúsculas tiram  ênfase às coisas, tornam iguais os diferentes, todos os caminhos se tornam um só que levam ao nada, algo como o retorno de alguém a uma cidade da sua infância que acaba de ser destruída por uma bomba: as diferentes casas pelas quais se orientava até chegar à sua, todas destruídas; as placas com o nome das ruas não mais existem; as próprias ruas estão cobertas de entulhos  e não levam a lugar algum, como a desorientação que se sente no primeiro contato com o poema quando tropeçamos no ponto que por vezes divide o período dentro de um mesmo verso, sem que haja a indicação da maiúscula para indicar o próximo. Ademais, o nome próprio “Roma” desaparece nessa barafunda e, ao invés de ser um lugar específico, é mais um instrumento de fuga que se chama “roma”.