quinta-feira, 7 de abril de 2011

INDESEJADA DAS GENTES III:OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE E OUTROS ATAVISMOS:UMA ELEGIA EM BUSCA DO TÚMULO DE MEU PAI, AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE.

(Improviso)

– Quando soube de ti,
já eras morto;
nem nunca tive em mim palavra tua               
que não me fora dada
de outra boca;
vives em mim como os santos       
sobre as abóbadas de ouro             
nestes antigos templos,                   
onde o amor é demais para tão       
simples lembrança                         
mas reconheço em mim a trajetória secular,
a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência
mesmo sem nunca ter te visitado
os ossos,
ou
o teu rosto
nos retratos.     



                                                             Candeias, Natal de 2006.



Este é o segundo poema do volume Ciranda de sombras de Silvério Duque ao qual faço um comentário e que também trata da morte e, de certa forma, de uma perda. Digo “de certa forma”, uma vez que, no primeiro caso, a perda é de entes queridos, com os quais houve uma intensa convivência e que foram todos, graças a um sentimento de vingança, mortos num curto espaço de tempo: um marido e todos os filhos. No presente caso, há algo como uma perda, mas de uma perda daquilo que nunca se teve e nem por isso perde sua importância.
É, por outra, uma forte presença de alguém que nunca foi visto. Para ser mais preciso, é a forte presença da história desse alguém, da sua memória(...nunca tive em mim palavra tua/ que não me fora dada/ de outra boca;), e de como essa memória se faz presente não apenas pelo esforço mental, mas se confunde com a personalidade mesma do filho que nunca conheceu o pai de quem herdou tal personalidade(mas reconheço em mim a trajetória secular,/  a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência/ mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos).
Lendo esse poema lembrei-me do primeiro verso de “Integração da noite” de Antônio Carlos de Brito e que estampa seu volume Palavra cerzida de 1967: “Meu neto prolonga meu filho”, e principalmente de um diálogo marcante entre o carrasco nazista, Maximilian Aue, com um judeu idoso: Mon nom est Nahum ben Ibrahim, de Magaramkend dans la goubernatoria de Derbent. Pour les Russes, j'ai pris le nom de Chamiliev, en honneur du grand Chamil avec qui mon père s'est battu. Et toi, quel est ton nom? ”  – “Je m'appelle Maximilien. Je viens d'Allemagne.” – “Et qui était ton père ?” Je souris: “En quoi est-ce que mon père t'intéresse, vieillard ? ” – “Comment veux-tu que je sache à qui je m'adresse si je ne connais pas ton père?” 
É uma passagem do memorável Les bienveillantes(As benevolentes) do escritor norte-americano Jonathan Littel. O velho judeu, seguindo a tradição do seu povo, apresenta-se por meio do seu passado, da sua história, mais ainda, da própria História simbolizada pelo seu pai e pelos seus feitos. Quanto ao jovem carrasco, diz apenas o primeiro nome, sem o sobrenome, seguido do local não propriamente de origem, mas a morada atual, Alemanha, quando na verdade nasceu na França. Diante de tão breve e pobre apresentação o velho pergunta como é possível conhecer o interlocutor sem antes lhe conhecer o pai.
Sem pai, sem substância. Eis o que deixam claro o diálogo e o poema de Silvério Duque.
O primeiro verso tem a qualidade de uma boa luta. Se realmente há a intenção de derrotar o adversário, que um golpe muito forte seja dado no primeiro instante para que não haja chance de reagir. Foi assim que David matou Golias, sobrepôs-se ao então rei Saul e garantiu seu futuro reinado.
Seguindo essa regra à risca, de primeira nos deparamos com “– Quando soube de ti,/ já eras morto”. Reparem que na verdade se trata de um único verso decassílabo que, para efeito de ênfase, foi reduzido a dois hemistíquios, e tanto a cesura como a quebra ocorrem exatamente no pronome, como se a partir desse ponto a morte tivesse se manifestado e desse modo mostrado quem foi por ela atingido.  A mesma regra, a da quebra a partir da cesura, se aplica aos quarto e quinto versos(que não me fora dada/ de outra boca).
A força do primeiro verso se prolonga nos seguintes(vives em mim como os santos/  sobre as abóbadas de ouro/ nestes antigos templos,) e culminam no  “onde o amor é demais para tão/  simples lembrança”. Ou seja, outro grande golpe e mais outros até o nocaute certeiro “mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos,/ ou/ o teu rosto/ nos retratos.” Mais uma vez uma quebra de um decassílabo, porém em fragmentos menores, como se desenhasse o olhar a percorrer demorada e atentamente cada ponto. Para cada verso, com exceção do antepenúltimo, uma palavra de valor substantivo e sempre referente à figura do pai, a saber, os seus “ossos”, o seu “rosto”, o qual pode ser visto nos seus “retratos”.
Esse decassílabo reduzido a quatro versos conclui ritmicamente o decassílabo que o antecede(mesmo sem nunca ter te visitado). Desse modo, e com o reforço das rimas assonantes (retratos/visitado), podemos dizer que o poema, na verdade, fecha com um belo dístico – camuflado em cinco versos –, como ocorre ou nos sonetos ingleses ou ao final das falas das personagens num drama:

mesmo sem nunca ter te visitado
os ossos, ou o teu rosto nos retratos.