sábado, 16 de fevereiro de 2019

A Outra Via

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

PROUST E O CONTROLE DA NARRATIVA


Muitas vezes, quando nossa vida parece prosaica demais, sem peripécias, damos asas à imaginação e começamos a elaborar-lhe uma história incrível em que somos os protagonistas triunfantes e, não raras vezes, emulamos as personagens literárias ou televisivas que admiramos e suas intrigas e, em alguns momentos, lhe vestimos a pele para viver suas aventuras e assim esperamos superar a mediocridade que enxergamos ou supomos enxergar. 
Outro grande momento do espírito humano captado por Proust.
Coitada da senhora Leonie que não dispunha de facebook para escrever fancics para seus seguidores.

PROUST E RIVALIDADE EM TODAS AS CLASSES




Que mané luta de classes! A rivalidade entre as pessoas do mesmo meio, no caso, entre pessoas que pertencem à criadagem, ou como se diria na linguagem da moda, em "situação de criadagem", e não entre estas e seus patrões, é muito mais divertida e as intrigas que resultam disso são tão engenhosas quanto as que são armadas pelos aristocratas. Proust, com aquele ar blasé, conhecia humanidade por onde quer que passasse e em todos os meios. 
O trecho acima é de No caminho de Swann, trad. Mário Quintana



sexta-feira, 28 de julho de 2017

A PRESENÇA DISCRETA DE PADRE BROWN


Este é um trecho do conto "O jardim secreto", do volume A inocência do padre Brown, em tradução, sem nenhum exagero, belíssima  de Carlos Nougué, publicada pela editora Sétimo Selo, em 2006. 
Essa passagem, que poderia ser tomada como mera enumeração e apresentação dos convidados do chefe de polícia de Paris, Valentin -- um antípoda do pequeno sacerdote, algo como o lado materialista da lei -- chamou-me atenção desde a primeira leitura. Padre Brown é a um só tempo uma inteligência certeira e desconcertante e uma presença física, dir-se-ia, opaca, ou como foi dito em "Cruz azul", "diminuto simplório" ou, ainda, "um tipo de homem que qualquer pessoa pode levar por um barbante até o Pólo Norte". 
O curioso é que no presente conto é o único que não conta com descrição detalhada que mereceram outras personagens. É simplesmente apresentado como de "Cobhole, Essex, a quem conhecera na Inglaterra". Com isso, a sugestão visual é interessantíssima, uma vez que percebemos como o policial francês olha demoradamente para cada convidado, a ponto de apreender-lhes os pormenores físicos e psicológicos, mas quando passa por Brown, a simples brevidade da descrição faz-nos perceber que seu olho quase o ignora, quando muito o detecta, e assim um recurso aparentemente tão simples descreve certa arrogância esclarecida de Valentin e certo sentimento de rivalidade em relação àquela figurinha de preto, quieta no seu cantinho, humilde e indiferente à exuberância artificial que o rodeia, o que comunica imediatamente com o final do conto anterior, o já aludido "Cruz azul", em que ele, "um padreco de Essex", em vez de prestar atenção à reverência de seus dois rivais -- o detetive esclarecido e o criminoso Flambeau que teve suas intenções reveladas -- ou comover-se ou envaidecer-se com ela,  "olhava em volta à procura de seu guarda-chuva".

terça-feira, 28 de junho de 2016

Poema 109 de Bruno Tolentino: truques inusitados num poema natural ou “a paz de um Céu tão fácil de perder”



Não permitas, Senhor, que a minha carne
se confunda outra vez e eu me atrapalhe
e caia como cartas de baralho
o castelo em que entrei para salvar-me.

Teresa castelã, valha o que valha
o meu fervor, o meu fragor de armas,
sustentai-me, rogai que eu não desarme,
que não se apague o fogo meu, de palha,

talvez, mas seja palha de fogueira.
Fogo de auto-da-fé, se necessário,
mas fogo irrevogável, se primeiro

hei de arder que entregar-me ao ilusório.
E se hei de merecer algum martírio
tanto mais duro quanto o assédio é sério.


É curioso -- apesar de não ser algo incomum nas obras de nosso autor, muito menos nesta -- o esquema de rimas apresentado neste soneto. A começar pelos tercetos -- analisando aqui do último verso ao primeiro --,“sério” rima com “ilusório” e com “necessário”, ou seja, a rima é entre vogais abertas(é, ó e á) seguidas, por sua vez, da combinação  de “Rs” vibrantes com terminações em “io”. Já com relação à “martírio”, a rima é com “primeiro” e “fogueira”. Entre as duas últimas a identidade é mais clara, mas comunicam com a anterior porque as tônicas caem na última sílaba poética.
O autor valeu-se aqui de uma variação das rimas toantes, cuja identidade sonora ocorre apenas nas vogais tônicas, não necessariamente na relação entre as mesmas vogais. Processo semelhante ocorre nos quartetos entre “desarme” e “armas”;  entre “salvar-me” e “carne”; e entre “baralho” e “atrapalhe”. No primeiro quarteto, porém, há um complicador: à primeira vista, “carne”, do primeiro verso, tem mais identidade sonora com “atrapalhe”, do verso seguinte, do que este com “baralho” que aparentemente acaba ficando sozinho na jogada.
Para compreender melhor esse esquema de rimas, baseei-me em dois fenômenos: o da já explicada identidade sonora entre as vogais tônicas, a qual atenua o valor da identidade sonora terminada em “e”(carne/atrapalhe) em favor da identidade em “a”(atrapalhe/baralho). O segundo  é   o  quarteto seguinte elucidar o primeiro, uma vez que a identidade entre “valha” e “palha” são mais óbvias. Essas, por sua vez, rimam com “baralho” e “atrapalhe” do quarteto anterior; assim como “desarme” e “armas” rimam com “salvar-me” e “carne”, também do anterior, formando o esquema abba/baab. Esse tipo de rima ou algo próximo, ao que parece, não era incomum na poesia medieval portuguesa, onde encontramos: “Per ribeira do alto/vi remar o barco,(...)// Vi remar o navio/U vai o meu amigo”, de Joan Zorro, ou ainda: “En os verdes prados/vi os verdes bravos,(...)//E con sabor delas/lavei as garcetas,”, de Pedro Meogo, ambos do século XIII.(The Oxford Book of Portuguese Verse, XIIth Century – XXth Century, OUP, 1962, p. 1 e 21 )
O comentário pode passar uma idéia falsa de complicação. Por outro lado,  é uma complicação que  se manifesta apenas na medida em que o leitor procura entender e explicar essa forma de rimar. Afinal -- eu que li esse poema repetidas vezes e no qual muitas vezes parei para apreciar-lhe a beleza, e com cujo sentimento que o anima sempre me emocionei e me identifiquei, que é o sentimento de viver na corda bamba, na qual  a possibilidade de errar e decepcionar é tão real quanto a própria morte, --, eu mesmo só prestei atenção ao esquema de rimas quando um amigo a quem o mostrei disse-me que achou estranha a presença de "sério", o qual encerra o poema, e que "não rima com nada". De resto, Tolentino é um autor que se utiliza de muitos truques -- cada qual mais surpreendente que o outro -- e que só se percebem como tais  quando se presta atenção a eles, e esse "não perceber" aumenta ainda mais o impacto no espírito de quem o lê.




sábado, 10 de outubro de 2015

NOTAS 'SOBRE AS ALMAS QUE SE QUEBRAM NO CHÃO': ENTRADA ARROGANTE NO INFERNO E UM POUCO DE EUROPA ATUAL



Marco, um Dante doente de alma estragada, a conselho de Bocas, algo entre o demônio e um Virgílio invertido, prepara-se para mudar de endereço, ou seja, para o Fawela cuja descrição apresentada não no torna muito diferente do Hades. Embora empolgado com a possibilidade de viver num jardim de delícias, não quer sair da residência estudantil sem antes causar uma forte impressão em seu então companheiro de quarto, a quem detesta. O trecho reproduzido acima por sinal articula-se, leitor de Dostoiévski que nosso autor é, com estas passagens dolorosamente hilárias de O homem do subsolo(trad. Boris Schnaiderman, ed. 34, 2000):

...De repente, tive vontade de ofendê-los do modo mais atrevido e, depois, ir embora. Aproveitar o momento e mostrar quem sou; que digam: "É ridículo, mas inteligente..."p. 91
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Esforcei-me apenas em não olhar para nenhum deles; assumia as atitudes mais independentes e esperava com impaciência  que eles fossem os primeiros a dirigir-me a palavra. Infelizmente, eles não começaram. p. 93
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Eu sorria com desdém e fiquei andando  do outro lado da sala, ao longo da parede, bem em frente ao divã, fazendo o percurso da mesa à lareira e vice-versa. Queria mostrar com todas as minhas forças, que podia passar sem eles; no entanto, batia, de propósito, com as botas no chão, apoiando-me nos saltos. Mas tudo em vão. Eles não me dispensavam absolutamente qualquer atenção. Tive a pachorra de ficar andando assim, bem diante deles, das oito às onze, sempre no mesmo lugar, da mesa à lareira e da lareira de volta à mesa. "Estou andando assim, e ninguém me pode proibir de fazer isso." p. 94

(Leiam o que René Girard escreve sobre o assunto em Mentira romântica, verdade romanesca. Nessa obra, pois, ele faz uma leitura fascinante sobre o O homem de subsolo, de Dostoiévski. Leiam também minha palestra O belo e o sublime: pobre gente.)

Asif, o tal companheiro de quarto, é um muçulmano que domina o idioma alemão, muito íntimo dos mecanismos civilizatórios locais e, como lhe fosse muito pouco, tem um caso com uma  alemã que lhe é subjugada, a quem trata como a um boneco. Antes de prosseguirmos, eis um trecho em que o perfil do maometano é descrito: 

"-- Ele se julga um gênio!", achava Marco. "Tá certo que fala bem o alemão. Mas também, estudando Germanistik, letras e língua alemãs, até um mudo consegue". Também era sedutor, esperto: conquistara uma alemã, embora Marco não a achasse bonita. E o casal passava finais-de-semana inteiros com um aparelho de som ligado, de onde pipocavam canções folclóricas afegãs, as heratis. Era uma música melosa, acompanhada de alaúde e com tablas marcando o ritmo. E o afegão puxava, com uma voz chorosa que irritava Marco profundamente, gazais tristíssimos, como se fosse a qualquer hora desfalecer fulminado pela saudade da pátria arruinada. Marco jamais escutara a voz da alemã! Sabia que ela estava ali porque via seus tênis diante da porta do quarto do afegão, e este também cozinhava o tempo todo, ia e voltava da cozinha, batendo a porta, e ela lá, certamente sentada no chão atapetado, entre almofadas, inerte, submissa, feliz da vida.

Essa submissão é espelho de outras situações que se desenvolvem paralelamente: uma alemã se submete a um muçulmano; Marco, por sua vez, se submete aos caprichos de Bocas que também seduz os europeus com seu exotismo tão extravagante quanto priáprico e qual um demônio -- em recompensa pelo luxo das almas que lhe são oferecidas -- dá nada mais do que lixo, puro lixo e Marco, coitado, sequer consegue usufruir das sobras que Bocas deixa pelo caminho. Como se toda miséria se lhe fosse pouca, outro muçulmano se interpõe entre Marco e uma brasileira ricaça no interior do Brasil.
Voltando a Asif e sua alemã, uma Europa invadida por maometanos que dos legalizados aos refugiados cada vez mais ditam as regras, impõem suas leis absolutamente incompatíveis com os princípios cristãos, tornam cada vez mais as mulheres européias em sucedâneo das virgens que lhes são prometidas após a morte -- mesmo que para isso recorram ao expediente do estupro -- confirma a narrativa d'As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro; o torpe ismaelita cavaleiro transforma, por fim, a Europa num quintal do Oriente Médio ou -- com o dócil consentimento e cumplicidade e, por que não, cooperação, dos líderes politicamente corretos europeus --,  no termo acertado do romance, está a transformar a Europa numa verdadeira Fawela.