quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Fingir a dor que deveras sente – uma leitura de “Ao Divino Assassino” de Bruno Tolentino

Um ensaio sobre "Ao divino Assassino", de Bruno Tolentino, tal como a maior parte de nós conhecemos, e sobre uma variante deste poema que Tolentino escreveu nos anos 80, quando ainda não era dedicado à Anecy Rocha, e a relação com sua opera omnia, publicado na Revista Unamuno, cujo linque é este:

 https://unamuno.com.br/divino-assassino-bruno-tolentino/

sábado, 16 de fevereiro de 2019

A Outra Via

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

PROUST E O CONTROLE DA NARRATIVA


Muitas vezes, quando nossa vida parece prosaica demais, sem peripécias, damos asas à imaginação e começamos a elaborar-lhe uma história incrível em que somos os protagonistas triunfantes e, não raras vezes, emulamos as personagens literárias ou televisivas que admiramos e suas intrigas e, em alguns momentos, lhe vestimos a pele para viver suas aventuras e assim esperamos superar a mediocridade que enxergamos ou supomos enxergar. 
Outro grande momento do espírito humano captado por Proust.
Coitada da senhora Leonie que não dispunha de facebook para escrever fancics para seus seguidores.

PROUST E RIVALIDADE EM TODAS AS CLASSES




Que mané luta de classes! A rivalidade entre as pessoas do mesmo meio, no caso, entre pessoas que pertencem à criadagem, ou como se diria na linguagem da moda, em "situação de criadagem", e não entre estas e seus patrões, é muito mais divertida e as intrigas que resultam disso são tão engenhosas quanto as que são armadas pelos aristocratas. Proust, com aquele ar blasé, conhecia humanidade por onde quer que passasse e em todos os meios. 
O trecho acima é de No caminho de Swann, trad. Mário Quintana



sexta-feira, 28 de julho de 2017

A PRESENÇA DISCRETA DE PADRE BROWN


Este é um trecho do conto "O jardim secreto", do volume A inocência do padre Brown, em tradução, sem nenhum exagero, belíssima  de Carlos Nougué, publicada pela editora Sétimo Selo, em 2006. 
Essa passagem, que poderia ser tomada como mera enumeração e apresentação dos convidados do chefe de polícia de Paris, Valentin -- um antípoda do pequeno sacerdote, algo como o lado materialista da lei -- chamou-me atenção desde a primeira leitura. Padre Brown é a um só tempo uma inteligência certeira e desconcertante e uma presença física, dir-se-ia, opaca, ou como foi dito em "Cruz azul", "diminuto simplório" ou, ainda, "um tipo de homem que qualquer pessoa pode levar por um barbante até o Pólo Norte". 
O curioso é que no presente conto é o único que não conta com descrição detalhada que mereceram outras personagens. É simplesmente apresentado como de "Cobhole, Essex, a quem conhecera na Inglaterra". Com isso, a sugestão visual é interessantíssima, uma vez que percebemos como o policial francês olha demoradamente para cada convidado, a ponto de apreender-lhes os pormenores físicos e psicológicos, mas quando passa por Brown, a simples brevidade da descrição faz-nos perceber que seu olho quase o ignora, quando muito o detecta, e assim um recurso aparentemente tão simples descreve certa arrogância esclarecida de Valentin e certo sentimento de rivalidade em relação àquela figurinha de preto, quieta no seu cantinho, humilde e indiferente à exuberância artificial que o rodeia, o que comunica imediatamente com o final do conto anterior, o já aludido "Cruz azul", em que ele, "um padreco de Essex", em vez de prestar atenção à reverência de seus dois rivais -- o detetive esclarecido e o criminoso Flambeau que teve suas intenções reveladas -- ou comover-se ou envaidecer-se com ela,  "olhava em volta à procura de seu guarda-chuva".

terça-feira, 28 de junho de 2016

Poema 109 de Bruno Tolentino: truques inusitados num poema natural ou “a paz de um Céu tão fácil de perder”



Não permitas, Senhor, que a minha carne
se confunda outra vez e eu me atrapalhe
e caia como cartas de baralho
o castelo em que entrei para salvar-me.

Teresa castelã, valha o que valha
o meu fervor, o meu fragor de armas,
sustentai-me, rogai que eu não desarme,
que não se apague o fogo meu, de palha,

talvez, mas seja palha de fogueira.
Fogo de auto-da-fé, se necessário,
mas fogo irrevogável, se primeiro

hei de arder que entregar-me ao ilusório.
E se hei de merecer algum martírio
tanto mais duro quanto o assédio é sério.


É curioso -- apesar de não ser algo incomum nas obras de nosso autor, muito menos nesta -- o esquema de rimas apresentado neste soneto. A começar pelos tercetos -- analisando aqui do último verso ao primeiro --,“sério” rima com “ilusório” e com “necessário”, ou seja, a rima é entre vogais abertas(é, ó e á) seguidas, por sua vez, da combinação  de “Rs” vibrantes com terminações em “io”. Já com relação à “martírio”, a rima é com “primeiro” e “fogueira”. Entre as duas últimas a identidade é mais clara, mas comunicam com a anterior porque as tônicas caem na última sílaba poética.
O autor valeu-se aqui de uma variação das rimas toantes, cuja identidade sonora ocorre apenas nas vogais tônicas, não necessariamente na relação entre as mesmas vogais. Processo semelhante ocorre nos quartetos entre “desarme” e “armas”;  entre “salvar-me” e “carne”; e entre “baralho” e “atrapalhe”. No primeiro quarteto, porém, há um complicador: à primeira vista, “carne”, do primeiro verso, tem mais identidade sonora com “atrapalhe”, do verso seguinte, do que este com “baralho” que aparentemente acaba ficando sozinho na jogada.
Para compreender melhor esse esquema de rimas, baseei-me em dois fenômenos: o da já explicada identidade sonora entre as vogais tônicas, a qual atenua o valor da identidade sonora terminada em “e”(carne/atrapalhe) em favor da identidade em “a”(atrapalhe/baralho). O segundo  é   o  quarteto seguinte elucidar o primeiro, uma vez que a identidade entre “valha” e “palha” são mais óbvias. Essas, por sua vez, rimam com “baralho” e “atrapalhe” do quarteto anterior; assim como “desarme” e “armas” rimam com “salvar-me” e “carne”, também do anterior, formando o esquema abba/baab. Esse tipo de rima ou algo próximo, ao que parece, não era incomum na poesia medieval portuguesa, onde encontramos: “Per ribeira do alto/vi remar o barco,(...)// Vi remar o navio/U vai o meu amigo”, de Joan Zorro, ou ainda: “En os verdes prados/vi os verdes bravos,(...)//E con sabor delas/lavei as garcetas,”, de Pedro Meogo, ambos do século XIII.(The Oxford Book of Portuguese Verse, XIIth Century – XXth Century, OUP, 1962, p. 1 e 21 )
O comentário pode passar uma idéia falsa de complicação. Por outro lado,  é uma complicação que  se manifesta apenas na medida em que o leitor procura entender e explicar essa forma de rimar. Afinal -- eu que li esse poema repetidas vezes e no qual muitas vezes parei para apreciar-lhe a beleza, e com cujo sentimento que o anima sempre me emocionei e me identifiquei, que é o sentimento de viver na corda bamba, na qual  a possibilidade de errar e decepcionar é tão real quanto a própria morte, --, eu mesmo só prestei atenção ao esquema de rimas quando um amigo a quem o mostrei disse-me que achou estranha a presença de "sério", o qual encerra o poema, e que "não rima com nada". De resto, Tolentino é um autor que se utiliza de muitos truques -- cada qual mais surpreendente que o outro -- e que só se percebem como tais  quando se presta atenção a eles, e esse "não perceber" aumenta ainda mais o impacto no espírito de quem o lê.