terça-feira, 31 de maio de 2011

Uma crítica na revista Ponto Zero a "Os Amadores" de Pedro Sette Câmara

Já tive a oportunidade de falar desta peça aqui e aqui. Érico Nogueira também se ocupou do assunto num texto tão enxuto quanto elucidativo e que parte dos seus conhecimentos da poética aplicada ao drama. E, finalmente, mais uma crítica, por sinal - e para nosso bem - detalhada. Boa leitura.

http://www.pontozero.net.br/cenicas_amadores.php#

quarta-feira, 9 de março de 2011

ALPHONSUS DE GUIMARAENS E A POESIA AGRADÁVEL



 
XXXVII

Ninguém anda com Deus mais do que eu ando,
Ninguém segue os seus passos como sigo.
Não bendigo a ninguém, e nem maldigo:
Tudo é morto num peito miserando.

Vejo o sol, vejo a lua e todo o bando
Das estrelas no olímpico jazigo.
A misteriosa mão de Deus o trigo
Que ela plantou aos poucos vai ceifando.
 
E vão-se as horas em completa calma.
Um dia (já vem longe ou já vem perto?)
Tudo que sofro e que sofri se acalma.
 
Ah se chegasse em breve o dia incerto!
Far-se-á luz dentro em mim, pois a minh’alma
Será trigo de Deus no céu aberto...


Alphonsus de Guimaraens é um dos poetas mais agradáveis da nossa literatura, uma espécie de Casimiro de Abreu vitaminado.
Ser agradável é uma característica notável da nossa poesia. Castro Alves, por exemplo, não abria mão dessa qualidade. A não ser assim, não teria composto um dos mais bem construídos poemas da nossa língua, como “O baile na flor”, que é uma engenhosa aplicação da chamada “arte maior”, ou até “O navio negreiro”. Mesmo quando se indignava com a sorte dos escravos era capaz de compor verdadeiros prodígios da engenharia sonora: “Era um sonho dantesco... o tombadilho/ que das luzernas avermelha o brilho”.
Os poemas tuberculosos e sombrios de Álvares de Azevedo poderiam ser tranqüilamente declamados para uma bela garota no alto do Arpoador(Palor de febre meu semblante cobre). Pensando bem... nem tanto, a não ser que goste de poesia também.  De qualquer maneira, uma boa qualidade dos poetas românticos é que mesmo ao desejarem guilhotinar o próximo para salvar a humanidade não deixavam de dedicar aos seus versos o mesmo cuidado do “ourives” de que fala Bilac.
E Vinícius de Moraes? É inegável a graciosidade e a plasticidade de “Eu te peço perdão por te amar de repente” ou a genial resolução imagético sonora que é a abertura do demagógico “Um operário em construção”(Era ele que erguia casas/ onde antes só havia chão./ Como um pássaro sem asas/ ele subia com as casas/ que lhe brotavam das mãos). Quanto ao que se segue, é uma constrangedora idealização do operário que parece ter sido escrito por um ricaço com sentimento de culpa que, num gesto extremo de egoísmo, resolve atribuir a si mesmo a responsabilidade por todos os males do mundo. Enfim, uma bobagem com método.
Não esqueçamos do meu luso-conterrâneo Gregório de Matos, que num dos poemas mais insultuosos da nossa língua, compôs esta bem arquitetada gradação verbal: “Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha”, e no mesmo poema, algo como um arremate a um insulto que aciona o piloto automático do Ministério da Igualdade(ou da Exclusividade, sei lá) Racial, legou à nossa literatura um verso que outros grandes poetas adorariam ter feito: “posta nas palmas toda a picardia.” Isso, sim, que é insultar com harmonia no coração!
Voltando ao bardo mineiro, o soneto XXXVII faz parte de um de seus livros póstumos que só vieram à luz em 1938, numa edição de poesias completas organizada e revista por Manuel Bandeira, e publicada pelo antigo Ministério da Educação e Saúde e responsável pela volta de uma forte reação alérgica de que ora sofro. O poeta tinha morrido em 1921.  
Não se demora a notar a simplicidade e a graça do velho cancioneiro português(Nam vos sirvo nem vos amo/ mas desejo vos amar,/ de sempre vossa me chamo/ sem quem nam é repousar. D. Philipa de Lencastre, “Ao bom Jesus” sec. XV)); também algum acento camoniano, ainda que não apresente algumas ginásticas verbais que, vez ou outra, o bardo português usava sem comprometer a leveza dos seus versos(Que um contino imaginar/naquilo que amor ordena,/é pena que, enfim, por pena/se não pode declarar).
Sua correção rítmica e acentual, com umas poucas variações que só ocorrem quando realmente necessárias, é análoga à correção dos cânticos litúrgicos em comparação às composições religiosas polifônicas que, por mais intenções religiosas tenham, não servem ao propósito da missa, mesmo que seja uma missa de Bach.
O primeiro quarteto é composto de versos cuja melodia retilínea está bem de acordo com seu caráter bastante assertivo: “ninguém anda...”, “ninguém segue”; “não bendigo... “tudo é morto...” Essa retilinearidade também se harmoniza com uma linguagem prosaica e um fraseado agradavelmente limpo. A linguagem dos três primeiros versos certamente já foi, é e será usada por vários devotos espalhados pelo mundo, exceto pelo fato de que a não estruturam numa moldura sonora que faça alguém perceber uma imagem definida que só pode ser percebida, por sua vez, pelos ouvidos: o primeiro quarteto é totalmente reiterativo, tem as mesmas acentuações(3, 6, 10), o que facilita bastante a percepção de uma sonoridade uniforme.
No mesmo quarteto duas idéias diversas se manifestam, apesar das fortes reiterações: os dois primeiros versos permitem perceber o orgulho devocional, e os dois restantes parecem dizer que alguma coisa está errada, a saber,  indiferença no terceiro e uma triste constatação no quarto. Afinal, como pode ser “miserando”  “um peito” que “anda” com Deus ou O “segue” praticamente o tempo todo?
O verso que abre o quarteto seguinte – um dos mais bonitos de todo poema, uma espécie de chave de ouro sem a sua natureza conclusiva – permanece, praticamente, com a mesma acentuação dos anteriores. Por outro lado, a reiteração rítmica se acumula numa única linha lhe proporcionando mais variedade sonora  (vejo o sol, vejo a lua e todo o bando ), como se estivesse reproduzindo três paradas ou pausas que são necessárias para visualizar três objetos por vez em razão da distância temporal: durante o dia vê-se o sol, primeira pausa;  ao final da tarde, a lua, segunda pausa; e no auge da noite o “bando” que o sexto verso nos informa ser o de “estrelas” no deslumbrante “olímpico jazigo”. Verso esse a partir do qual uma linguagem mais sublime ou mais relacionada ao mistério começa a aparecer.
Os sétimo e oitavo versos, seguindo o padrão de escola, usam de certo acento bíblico para ilustrar a mortalidade(A misteriosa mão de Deus o trigo/Que ela plantou aos poucos vai ceifando.) e que recordam de algum modo o igualmente delicado “rosas,/ que em o dia que nascem/ em esse dia morrem”, de Ricardo Reis.
Apesar do dramático “ceifando”, a mortalidade não é ainda o problema. Pelo contrário, estaria longe de o ser. É um privilégio. Vejamos. Os tercetos resgatam a linguagem mais aproximativa do primeiro quarteto. Se o esquema de rimas já era simples, no primeiro terceto simplifica mais ainda ao rimar um adjetivo com sua versão verbal(calma/acalma.) que lembram, posto que vagamente –  porém mais engenhoso –  o “é pena que, enfim, por pena” camoniano. Aqui a constatação, ao menos indiferente na aparência,  da mortalidade(um dia.../ Tudo que sofro e que sofri se acalma.) e a expectativa ansiosa da morte((... já vem longe ou já vem perto?)) se misturam, conferindo ao terceto um belo efeito emocional, como o constatamos nos poemas do já citado Ricardo Reis, nos quais um drama intenso se expressa em versos calmos, de sentimento estóico. Acontece que essa ansiedade não se explica pelo medo, mas pelo desejo de que o dia definitivo chegue o mais rápido possível, como se houvesse a certeza de que esta vida, por melhor e mais aprazível que seja, não é nada se comparado ao que de fato realmente nos espera:

Ah se chegasse em breve o dia incerto!
Far-se-á luz dentro em mim, pois a minh’alma
Será trigo de Deus no céu aberto...

Eis, pois, um terceto que encerra o poema de forma reconfortante, com uma criativa imagem agrícola(... minh’alma/ será trigo de Deus no céu aberto...) aplicada aos corpos celestes, e que consegue nos aliviar da angústia do fim perceptível naquela charmosa dicção aristocrático-pagã dos também mui delicados poemas de Ricardo Reis.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

POEMA DE LOS DONES, de Jorge Luis Borges




Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.





Os contos de Jorge Luis Borges são os mais impressionantes da literatura. Na verdade, acabo dizendo isso a respeito de tudo de que gosto. (Os contos de Relíquias da casa velha de Machado de Assis são... Os contos de Murilo Rubião são... Os..) Porém, quando me deparo com sua poesia, acabo cometendo o mesmo excesso. (A poesia de Jorge Luis Borges é...) De qualquer maneira, minha preferência é pela poesia, mesmo quando os contos em questão são os que fazem parte do volume Ficciones ou quando se trata de “There are more things” de El libro de arena, dedicado a Lovecraft, e que é um dos melhores contos de terror que já li.
Nessa narrativa, ao invés de se descrever em detalhes a aparência horrenda e sobrenatural do dono de um solar misterioso, essa é sugerida pela menção ao formato inusitado das mobílias(Ninguna de las formas insensatas que esa noche me deparó correspondía a la figura humana o a un uso concebible.). Até mesmo o formato convencional de partes da casa parece agravar, pelo contraste, as especulações sobre essa mesma aparência. (Esa escalera, que postulaba manos y pies, era comprensible y de algún modo me alivió.) Ademais, o parágrafo final emula o igualmente assustador “Garra do macaco” de J. J. Jacobs.
Diria também que seus contos apresentam uma propriedade da poesia que muito admiro: sensação de simultaneidade. Elementos de várias naturezas, diferentes cenários, teorias ocultistas, teológicas, filosóficas e toda sorte de diversões intelectuais que ocupam o espírito de detetives se desenvolvem lado a lado com alguma trama e toda essa maravilhosa barafunda se prolonga na sua obra poética, como podemos notar em “Ajedrez”, um soneto que trata da predestinação,  e que figura no livro El hacedor(1960)  e do qual também faz parte “Poema de los dones”, acima estampado, e que deve ser um dos poemas mais sentimentais(no bom sentido) a compor o volume. É algo como uma versão “cabeça” de “Meus oito anos” de Cassimiro de Abreu ou “A canção de exílio” de Gonçalves Dias, mas dentro da qual(perdoai-me o abuso da liberdade anatômica) “também bate um coração”. E bate mesmo.
Esse poema tem algo de narrativa. Visualizamos alguém percorrendo uma biblioteca, tateando esse espaço, caminhando com a mesma lentidão e hesitação da música dessas engenhosas quadras. Vamos a alguns exemplos.
Na abertura da segunda estrofe, “i” de libros se prolonga no verbo seguinte(hizo), ou arrasta-se até ele; ou ainda, uma longa caminhada e o roçar as inúmeras lombadas são bem ilustrados pelos nove substantivos que regem um único verbo(brindan) que só aparece no verso final. (É uma estrofe, aliás, ilustrativa e que diz todo o poema. A única coisa que resta ao cego-narrador é apalpar as lombadas e imaginar o que guarda cada uma delas e listar mentalmente os assuntos aos quais não pode mais retornar senão pela memória: “...unos ojos sin luz, que sólo pueden/ leer en las bibliotecas de los sueños/ los insensatos párrafos...”. Por isso, nenhuma teoria por trás desses assuntos é desenvolvida ou discutida em todo o poema. Há apenas uma listagem.) “Lento en mi sombra, la penumbra hueca” é também um belo exemplo de verso imitativo: o intervalo quaternário, mais a pausa natural, aumentam a distância entre as assonâncias. (“sombra” e “penumbra”) Uma fileira de vogais ou de sons vocálicos têm um papel muito importante na quarta estrofe e parecem se prolongar indefinidamente, conferindo ao ambiente uma sensação de amplitude comumente intensificada pela própria cegueira ou por um lugar escuro: “de esta ALta y HONda biblioteca ciega.” Essa sensação de amplitude espacial é também o efeito causado pela abertura da penúltima estrofe, mas dessa vez pelo recurso à antropomorfização(lentas galerias), também presente no verso citado anteriormente(biblioteca ciega).
Nesse poema, por fim, não há um abismo entre o mundo intelectual e a vida propriamente dita. (Como se isso tivesse existido em algum momento!) Pelo contrário, são dois elementos que se confundem a tal ponto que sempre pareceram identificar-se um ao outro. Mais ainda, o que é normalmente visto como mero cerebralismo é justamente o que mais reforça a natureza emotiva do poema e faz com que nos identifiquemos com aquela situação narrada. A enumeração enciclopédica da quinta estrofe, por exemplo, explicita de forma eloqüente uma privação que é também ilustrada pelo recurso ao mito de Midas, recordado em versos tão arrebatadores quanto o melhor poema de amor ou uma elegia: “De hambre y de sed (narra una historia griega)/ muere un rey entre fuentes y jardines”.  Esses versos, cuja música é tão suave aos ouvidos e tem a qualidade do melhor adágio, jamais poderia sair da cabeça de um Dr. Spock argentino.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Canção de Níobe", de Silvério Duque: Mater dolorosa

 
Se morta, sim, eu me fizesse, adormecendo
sobre os braços da terra amiga, pouparia
meu coração desesperado e me faria
como a doce romã que, agora, florescendo,

amadurece alegre, e, enfim, apodrecendo,
reduz sua doçura à lembrança de, um dia,
ter sido, entre outras tantas, a que, de alegria,
povoou o chão com belas sementes; mas vendo

minha função de mãe minorada a um momento
de mais profunda angústia, assim, eu permaneço,
petrificada, imóvel pelo sofrimento,

não recordando mais da luz do sol nascente
e nem sentindo a forma fria onde me esqueço:
esta fonte a fluir sua dor, eternamente...


Níobe
por Ovídio

(...)Queda-se só,
entre os cadáveres dos filhos, e os das filhas, e o do marido.
Pela desgraça fica hirta. A brisa já nem um só cabelo move,
o rosto empalidece, sem pinga de sangue, os olhos param,
imóveis, na desolada face: nada está vivo na sua figura.
Até a própria língua se congela no interior do palato
endurecido, e as veias desistem de poder palpitar.
E já nem o pescoço se flecte, nem os braços se movem,
nem os pés logram andar: até o interior das vísceras é pedra.
Porém ela chora. E, apanhada pelo turbilhão de um vendaval,
é levada para sua terra. Ali, fixada no cimo de um monte,
desfaz-se a chorar, e ainda hoje do mármore jorram lágrimas.

Ovídio, Metamorfoses, livro VI, VV. 301-312, trad. Paulo Farmhouse Alberto


Este é o momento em que Níobe - após ter disputado com Latona a primazia das oferendas - vê seus sete filhos, seu maior orgulho, morrendo um a um alvejados pelas setas de Apolo e de Diana, filhos da própria Latona. Alguém submerso numa dor tão imensurável que a única imagem possível é de uma pedra que chora, é uma metáfora tão poderosa quanto tocante.
O soneto - do livro Ciranda de sombras a ser lançado proximamente - que antecede ao trecho de Ovídio foi resultado de um desafio que fiz a seu autor e meu amigo Silvério Duque. Após ouvi-lo narrar esse mito, fiquei tão impressionado com a precisão com que o fez que não vi outra saída senão pedir-lhe que escrevesse um poema sobre o assunto.
Afinal, da mesma forma que só a mutação em pedra-fonte poderia dizer a dor da personagem, a poesia seria a única forma de dizer essa dor.
Eis que poucos dias depois, o autor me aparece com esse alexandrino em que dá voz à própria vítima do infortúnio e que encerra com um verso extraído ao fragmento da poetisa Safo de Lesbos.
Salvo engano, a única parte do poema que chegou ao nosso conhecimento.
Reparem a mobilidade das cesuras no primeiro quarteto que aos poucos cede espaço à sua imobilidade a partir do quarteto seguinte, sempre nas sextas sílabas, como se estivesse a ilustrar assim o processo de petrificação.
Além disso,  o estilo contido que diz de algum modo esse estado pétreo da narradora, e a distribuição imitativa da rimas. Ou seja, os verbos “florescer” e “apodrecer” encerram, cada um,  respectivamente, o quarto e o quinto versos, seguindo assim uma seqüência lógica.



domingo, 2 de janeiro de 2011

Os amadores, de Pedro Sette-Câmara, e um parênteses machadiano



Numa palestra sobre As almas que se quebram no chão(parte 1 e parte 2) tive a oportunidade de apresentar o romance Eu vos consagro a minha língua, de José Carlos Zamboni, e a peça Os amadores, de Pedro Sette-Câmara. Nessa peça, o espírito romântico, que também habita os dois romances, é dissecado e assim revelada sua verdadeira natureza. Ademais, pareceu-me  curioso uma peça com dicção de comédia para adolescentes, com algo das novelas de Manoel Carlos(I-love-you-Rio-com-bossa-nova-como-trilha-sonora), e também do teatro grego com a curiosa “Voz Elegante” fazendo as vezes do coro, mais explicitar que atenuar a influência de Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Só que agora, ocorre-me apontar a familiaridade com a visão também sem atenuantes dos romances Machadianos, incluindo os dois primeiros da fase romântica, A ressurreição(1872) e a Mão e a Luva(1874). Diria ainda mais desses que os da segunda fase.
Os dois primeiros ao menos, principalmente o de estréia, não me parecem propriamente românticos. (Ia-iá Garcia e Helena – os dois últimos dessa fase –  correspondem mais, é verdade, à característica romântica propriamente dita, com direito às revelações de revelações de revelações... até que finalmente se descobre que a mocinha pobre não era uma vadia e assim finalmente casa-se com o mocinho rico de bom coração.) Pelo contrário, os elementos da segunda fase e a anatomia do espírito humano já estão bem presentes nos dois primeiros, os quais – coincidência? – são justamente os que apresentam a narrativa mais linear, mais característica da fase seguinte. Observe-se que, com toda sua inventividade, Memórias póstumas de Brás Cubas não apresenta tanta peripécia narrativa que se percebe em Helena, muito menos os que o seguem.
N’A ressurreição e A mão e a luva, a técnica romântica propriamente dita, com todos os seus sentimentalismos, parece ser usada mais para evidenciar a tibieza romântica, a que faz uso de motivos nobres para não conseguir o que se quer:

Em matéria de amor, deixa-se o homem de espírito embalar por estranhas ilusões. As mulheres são para ele entes de mais elevada natureza que a sua, ou pelo menos ele empresta-lhes as próprias idéias, supõe-lhes um coração como o seu, imagina-as capazes, como ele, de generosidade, nobreza e grandeza. Imagina que para agradar-lhes é preciso ter qualidades acima do vulgar. Naturalmente tímido, exagera mais ao pé delas a sua insuficiência: o sentimento que lhe falta muito, torna-o desconfiado, indeciso, atormentado. Respeitoso até à timidez, não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de uma não interrompida série  de meigos cuidados, ternos respeitos e atenções  delicadas. Como nada quer à custa de uma indignidade, não se conserva continuamente ao pé daquela que ama, não a persegue, não a fadiga com a sua presença. Para interessá-la em suas mágoas, não toma ares sombrios e tristes; pelo contrário, esforça-se por ser sempre bom, afetuoso e alegre junto dela. Quando se retira da sua presença, é que mostra o que sofre, e derrama as suas lágrimas em segredo.
O tolo, porém, não tem desses escrúpulos. A intrépida opinião que ele tem de si próprio, o reveste de sangue frio e segurança.
Satisfeito de si, nada lhe paralisa a audácia.

É preciso ser muito romântico para acreditar que Machado de Assis esteja elogiando tal “homem de espírito” apenas porque o trecho em questão encontra-se numa obra da fase romântica. Esse é um trecho do terceiro capítulo do livro de estréia, A ressurreição. Vejamos agora como se comunica com este trecho de Os Amadores:


VOZ ELEGANTE: Você ainda não percebeu que seus amigos consideravam você
alucinado e imaturo?
VÁLTER: Eu estava preparado para isso. No fundo, no fundo... Eu sabia que eles não chegariam a entender.
VOZ ELEGANTE: Você se sente muito superior.
VÁLTER: Eu sou um injustiçado.
VOZ ELEGANTE: E você quer um bálsamo ou quer justiça?
VÁLTER: Quero que o mundo pare para se admirar com Ícaro se afogando. Quero
que reconheçam o sentimento superior e mais nobre quando ele aparece. Quero que uma mulher que é uma deusa saiba disso e reconheça quem percebeu isso nela.
VOZ ELEGANTE: Justiça, então, é você, as suas ambições serem justificadas. Justiça é o mundo olhar para o sofrimento da sua alma.
VÁLTER: E não é?
VOZ ELEGANTE: Você está morto, Válter. Para sempre. Como eu. Você não sente que as chamas vão ficando mais fortes?


Eis como os dois trechos, escritos por duas sensibilidades afastadas uma da outra por mais de cem anos, mas unidas pela percepção cirúrgica do real, revelam o que se esconde por trás dos  sonhos e ambições que não encontram sua tradução em realizações concretas(uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma espécie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem asas para voar até lá. In A mão e a luva), mas que, ironicamente, não impede o sonhador de buscar um reconhecimento justamente por aquilo que não fez, bastando-lhe as boas intenções a se traduzirem numa sensibilidade para perceber o “belo e o sublime”, sensibilidade essa que – segundo o próprio sonhador -   deveria distingui-lo dos mortais, do vulgo, ou, usando de uma imagem machadiana, pôr o “homem de espírito” acima do “tolo audacioso”.

P. S.
Leiam também um ótimo texto de Érico Nogueira sobre a peça.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um poema para o Natal de Bruno Tolentino

Em frontispício


‘Eu vos compensarei pelos anos que
  o gafanhoto comeu...’  ( Joel, 2:25)

O Senhor prometera nos compensar os anos
que a legião dos gafanhotos devorara,
meu coração, mas a promessa era tão rara
que achei mais natural vê-Lo mudar de planos

que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos.
Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara
fecundar-me as cantigas, coração meu – repara
como crescem espigas entre escombros humanos...

Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto ei-Lo arando, abrindo os olhos meus,

fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se                 
foi como o grão – entre a seara e a colheita.


Esse prólogo à Imitação do amanhecer(2006), de Bruno Tolentino, é a minha saudação de Natal. É um prólogo a uma narrativa. Ao invés, porém, de ser uma invocação às musas, um pedido para que conceda ao poeta “engenho e arte” é algo como uma oração, um agradecimento. Mas que agradecimento!  Como um bom agradecimento, é feito em voz baixa – mas não sussurrado –, meditando em cada palavra, com o ritmo do pensamento que encontra sua harmonia após momentos de grandes provações.  
Devo também observar que os outros sonetos que compõem a Imitação do amanhecer têm mais ou menos essa sobriedade do prólogo. Diria mais, é uma obra que consegue uma curiosa harmonia entre a sobriedade da linguagem e a eloqüência da beleza(Cantaremos assim, como o eco na arcada/de um violoncelo ou de uma escada, a dor de andar/como os cacos avulsos, os lúcidos amantes/da coisa moritura(III-151) Andamos todos nus ante o exercício ingrato/ de animar um vazio, o pêssego no prato/a natureza morta...(III-152)). Voltando ao prólogo, versos como “repara/ como crescem espigas entre escombros humanos...”, e mais adiante, “e no entanto ei-Lo arando, abrindo os olhos meus,” desenvolvem-se num belíssimo efeito de câmera lenta, que flagra as sutilezas de alguns movimentos imperceptíveis a olho nu.
Tal agradecimento ganha maior significado quando percebemos que esse se deu após a morte ter acompanhado a personagem em todos os seus passos, após ter se mostrado mais clara nos momentos da mais intensa alegria; após essa personagem ter perdido seu amante e, numa tentativa desesperada de perpetuar um momento de felicidade, mandar embalsamar seu corpo para carregá-lo mundo a fora; após ter percebido que o belo trabalho de embalsamento era a um só tempo encantador e delirante, como o era a natureza da relação entre eles, ao qual o próprio narrador chamou de um amor de duas pessoas unidas “como as estátuas ao seu belo imobilismo” (II-102).
Por fim, após a personagem testemunhar uma série de eventos naturais que de tão exuberantes(uma rosa de areia/ que troca de lugar para fingir que dura(I-4) Como os filhos da fênix, o bando[de flamingos] vive agora/ de queimar-se, fogueiras subindo espaço a fora.(III-120)) desmentiam e humilhavam suas fantasias, seu mundo inventado, ele simplesmente... agradece. Sofre, e muito, sua sucessão de perdas. Mas, após essa fileira de desastres percebe que seus olhos finalmente se abriram para o fato de que “uma só coisa é necessária” (Lc. 10, 42), a que o narrador chama de “a Perfeita Presença” que “não é uma personagem ou uma noção, é um quisto/ uma intrusão carnal por sob o imaginário/ de cada ocidental.”(II-63). Talvez seja precipitado dizer que essa personagem tenha passado por um processo de conversão. Não é tão claramente verificável. Não estamos propriamente diante de uma obra pia. Por outro lado, houve, sim, ao menos alguma ordem de revelação ao final da qual acaba por perceber que todas essas perdas – diante do impacto dessa revelação –  nada mais foram (como ele mesmo disse) que um “grão – entre a seara e a colheita”.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

(OS DOZE PROFETAS), de Érico Nogueira

O tempo vos comeu as pontas
dos dedos, narizes e dos pés;
à medida que esculpia
vosso rosto e corpo desconformes
o autor esculpia o seu destino
no vosso e no tempo redobrado.

Há muitas armadilhas
no labirinto de dobras e de espelhos,
no labirinto do tempo; às vezes
nos ilude a semelhança; oculta,
a rima é profecia às vezes.


Este poema de Érico Nogueira com seus devidos comentários eu postara antes no mural do FACEBOOK. Graças à gentileza do poeta e de Adriana Invitti(Nem só do pão vive o homem, mas das palavras que vêm do Forno de Ensaio), agora tenho este blogue por tribuna e que leva o nome de uma seção à qual ainda na famosa rede social dei o nome de Antología personal, numa referência ao volume homônimo de Jorge Luís Borges. Aos poucos, resgatarei outros comentários e os postarei aqui de forma mais organizada.
 “Os doze profetas” é da terceira parte d’O livro de Scardanelli, subintitulada “Cadernos de exercícios”. Também é o terceiro e último da série “O espólio de Horácio”. Sobre esse livro de estréia tive a oportunidade de escrever um ensaio chamado O livro de Scardanelli:O esquadro da loucura, publicado no blogue Ars poética, do autor. Além desse ensaio, há outro bastante elucidativo escrito por Carlos Felipe Moisés e que figura no posfácio, além de outro muito instigante escrito por Ricardo Domeneck, ainda antes do seu lançamento.
Posso dizer com tranqüilidade que gosto de todos os poemas do Scardanelli. (Com a mesma tranqüilidade digo que, depois de Bruno Tolentino, tanto esse como Dois constituem as melhores realizações poéticas da atualidade. Ide e lede.) Se por um lado gosto de todos, sempre há aqueles pelos quais tenho mais afeto:  “Os Doze Profetas” é um deles.
Desde que o li, nunca parei de pensar nele e na delicadeza que o destaca dos demais. Tratar seriamente da morte confere essa delicadeza. É o que se vê, por exemplo, na primeira estrofe quando o artista faz revelar a própria mortalidade nas estátuas que cria. Outros há também que muito me impressionaram e sobre os quais falarei num momento oportuno. É um poema em alto relevo, concreto porque diz, e com a qualidade da melhor estatuária. Dessa qualidade também participam os versos da segunda parte, “La méditation”(Como é possível que a beleza grega/ da curva dos músculos, do tônus,/ possa se contorcer e ser um soco,/ pose para o desespero?). Essa qualidade estatuesca também se materializa no enjambement(o tempo vos comeu as pontas/dos dedos), que é uma amostra do uso funcional desse recurso: a plena coincidência entre o encerramento(corte)do verso e a aludida ação do tempo. Isso, sim, é uma ars poetica.