domingo, 3 de setembro de 2023

Trecho de "Só que um pouco pior. Resposta a alguns amigos", de Michel Houellebecq

(...) Sobre a peste [Covid 19] tivemos muita coisa, ao longo dos séculos, os escritores sempre se interessaram  pela peste. Mas sobre isto, duvido muito. Para começar, não acredito nem por um segundo em declarações do tipo "nunca mais nada será como dantes". Pelo contrário, tudo ficará exactamente como era. O desenrolar desta epidemia é até notavelmente normal. O Ocidente não é por direito divino, para toda a eternidade, a zona mais rica e desenvolvida do mundo; isso acabou, já há algum tempo, não é propriamente novidade. Se examinarmos até, em detalhe, o que se passa, a França sai-se um pouco melhor do que a Espanha e do que a Itália, mas menos bem do que a Alemanha; também aqui não encontramos propriamente uma grande surpresa.

Pelo contrário, o coronavírus deveria ter, como principal resultado, a aceleração de certas mutações em curso. Desde há alguns anos, o conjunto das evoluções tecnológicas, sejam elas menores (o streaming de vídeo, o pagamento sem contacto) ou maiores (o teletrabalho, as compras pela Internet, as redes sociais), tiveram como principal consequência (ou principal objectivo?) diminuir os contactos materiais, e sobretudo os contactos humanos. A epidemia do coronavírus  oferece uma magnifica razão de ser para esta tendência pesada: a de uma certa absolescência que parece afectar as relações humanas. O que me faz pensar numa comparação luminosa que encontrei num texto anti-PMA [Procriação Medicamente Assistida, nota do tradutor] redigida por um grupo de activistas denominado "Os chimpanzés do futuro"(descobri estas pessoas na Internet; nunca disse que a Internet só tinha inconvenientes). Por isso, vou citá-los: "Dentro em breve, fazer filhos pelos próprios meios, gratuitamente  e ao calhas, parecerá tão incongruente como hoje andar à boleia sem uma plataforma web." A partilha de carros, a partilha de aluguer da casa, esse tipo de coisas, enfim, temos as utopias que merecemos, mas passo bem sem elas.

Será igualmente falso afirmar que redescobrimos o trágico, a morte, a finitude, etc. A tendência desde há meio século, bem descrita por Philippe  Ariès, foi a de dissimular a morte, tanto quanto possível; pois bem, nunca a morte terá sido tão discreta como nas últimas semanas. As pessoas morrem sozinhas nos seus quartos de hospital ou de EHPAD [... equivalentes a casas de repouso ou lares de terceira idade, nota do tradutor], enterram-nas assim que morrem (ou serão cremadas? a cremação está mais conforme ao espírito do tempo), sem chamar ninguém, em segredo. Mortos que partem sem que haja testemunhos disso, as vítimas resumidas a uma unidade nas estatísticas dos mortos diários, a angústia que se espalha pela população à medida que os números totais aumentam, tudo isto tem qualquer coisa de estranhamente abstracto.

Um outro número ganhou importância nestas semanas, o da idade dos doentes. Até quando é suposto reanimá-los e tratá-los? Onde colocar o limite? Nos 70, nos 75, nos 80 anos? Isso depende, aparentemente, da região do mundo onde se vive; mas nunca, em todo caso, foi dito com um tão tranquilo impudor que nem todas as vidas valem o mesmo; que a partir de uma certa idade (70, 75, 80 anos?)), é um pouco como se já estivéssemos mortos.

Todas estas tendências, já o disse, existiam antes do coronavírus; mas manifestaram-se agora com uma maior evidência. Nós não vamos acordar, depois do confinamento, num mundo novo; será o mesmo, só que um pouco pior.

Esta carta foi lida por Augustin Trapenard, aos mícrofones da France Inter, a 4 de Maio de 2020

Tradução de José Mário Silva, Intervenções, Alfaguara, 2021

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

IMPRENSA INVESTIGATIVA


Para nossa imprensa, tão investigativa, tão científica, a CNH vencida é sintoma de psicopatia aguda e, automaticamente, o sujeito perde habilidade de guiar um automóvel. Tão ciosa do Estado laico, é a primeira a se submeter ao feiticismo documental, de maneira que é muito comum ao relatar um acidente logo informar que o motorista não tinha CNH ou que esta estava vencida, como se o documento em si desse habilidade ou capacidade de condução, quando na verdade atesta essa capacidade, sem no entanto garantir isso. Em tempo, o ministro mais empático do universo, empatias tantas, imensas, que cada vez mais lhe avolumam a pança, guiando-se pelo clamor dos xamãs cartoriais, que vai da imprensa às subcelebridades do momento, providenciou caninamente a demissão dos três policiais, um dos quais Kleber Nascimento Freitas, o perigoso da CNH vencida, que em verdade é incapaz, sim, de matar uma mosca, uma das pessoas mais gentis que conheço, muito dedicado ao próximo, um ser humano exemplar.

Clarice pura empatia

Numa cena da série Clarice, disponível na Prime Vídeo, baseada no filme e no livro O silêncio dos inocentes, aparece a personagem  Julia, que é  travesti, interpretada por um ator igualmente travesti chamado Jen Richards. A série, que não é lá grande coisa, ao menos é do tipo que leva o espectador a lhe acompanhar o desenvolvimento da trama. 

Acontece, porém, que em determinado momento essa personagem, ao colaborar nas investigações empreendidas por uma equipe do FBI contra os atos da empresa da qual é funcionária, é chantageada pelo seu chefe malvadão, que deixa claro saber que na verdade ela é ele, e que se não parar de colaborar com as investigações, vai contar para todo mundo que ela é ele, o que a deixa muito assustada, afinal era um segredo que guardou a sete chaves para evitar perseguições e preconceitos. O curioso é que, para quem quer manter segredo, a personagem, ainda que ande bem maquiada, use roupas femininas, roupas chiques, tenha gestos delicados, é visivelmente troncuda, corpulenta mesmo, rosto viril, de modo que não se entende como passou pela cabeça do chefe malvadão chantageá-la com algo que é muito evidente e ela, por sua vez, ficar com medo disso. É algo tão absurdo que nos episódios seguintes essa chantagem não mais é mencionada, é como se nunca tivesse havido, e o malvadão resolve fazer o que era mais lógico fazer, assustá-la com o seu poder econômico e criminoso. Claro que essa chantagem fuleira foi uma maneira evidente de forçar a nota e assim denunciar o preconceito que condena os travestis à invisibilidade. Outra coisa, já entra em cena dando um baita sermão em Clarice por esta nada fazer contra os comentários na imprensa a respeito de Bufallo Bill ser travesti, levando, por conseguinte, a população ao erro de acreditar que todo travesti é como ele um assassino de fato ou em potencial, sermão esse que é também uma indireta tanto ao autor do livro, em que a série se baseia, como ao filme O silêncio dos inocentes, de 1991. 

Não há nenhum problema nem deveria causar espécie que travestis possam trabalhar como atores e desempenhar papel de alguma personagem travesti. O problema é que em vez de se criar uma narrativa com essa personagem, usam-na como chicote contra os preconceitos da sociedade ou, como se diz, sua transfobia, abrindo-se mão de se construírem personagens ou  de se fazerem  filmes ou séries, substituindo-os por campanhas de conscientização ou de treinamento de sensibilidades, no melhor estilo 1984 ou como o procedimento "Ludovico", do livro Laranja mecânica.

terça-feira, 15 de agosto de 2023


 

Colheita

Doce sol vermelho
maduro tomate
caído no verde
pelo céu da tarde.

Um verme aguçado
por flava vontade 
se faz de cometa,
quer a sua parte.

E a grama apodrece
no roxo azulado,
e mil borboletas
vão surgindo em astro.

À noite, o poeta,
com olhos cerrados,
vai colher o fruto
em seu peito amargo.


Para ler esta e outras preciosidades do novo livro de Márcio Gómez Benito, vá ao site da Mondrongo e adquira o seu. É verdadeiramente um livro de quem leva o leitor a sério. 


terça-feira, 25 de julho de 2023

Editora João e Maria

Há os que reclamam, que dizem que o mundo está mal; há os que sabem disso e não veem nesse estado de coisas um impedimento por se fazer algo. Assistam a este vídeo de apresentação da editora João e Maria e saibam do que estou falando: