Soube, hoje, da morte do talvez último sobrevivente dos meus, de uma ou de outra forma, escassos inimigos. Que Deus, em sua infinita misericórdia, receba a alma desse desgraçado.
Herberto Sales, Subsidiário 3
Soube, hoje, da morte do talvez último sobrevivente dos meus, de uma ou de outra forma, escassos inimigos. Que Deus, em sua infinita misericórdia, receba a alma desse desgraçado.
Herberto Sales, Subsidiário 3
No termo do Pajeú, em Pernambuco, os últimos rebentos das formações graníticas da costa se alteiam, em formas caprichosas, na serra Talhada, dominando, majestosos, toda a região em torno e convergindo em largo anfiteatro acessível apenas por estreita garganta, entre muralhas a pique. No âmbito daquele, como púlpito gigantesco, ergue-se um bloco solitário -- a Pedra Bonita.
Este lugar foi, em 1837, teatro de cenas que recordam as sinistras solenidades religiosas dos Achantis. Um mamaluco ou cafuz, um iluminado, ali congregou toda a população dos sítios convizinhos e, engrimpando-se à pedra, anunciava, convicto, o próximo advento do reino encantado do rei D. Sebastião. Quebrada a pedra, a que subira, não a pancadas de marreta, mas pela ação miraculosa do sangue das crianças, esparzido sobre ela em holocausto, o grande rei irromperia envolto de sua guarda fulgurante, castigando, inexorável, a humanidade ingrata, mas cumulando de riquezas os que houvessem contribuído para o desencanto.
Passou pelo sertão um frêmito de nevrose...
O transviado encontrara meio propício ao contágio da sua insânia. Em torno da ara monstruosa comprimiam-se as mães erguendo os filhos pequeninos e lutavam, procurando-lhes a primazia no sacrifício... O sangue espadanava sobre a rocha jorrando, acumulando-se em torno; e afirmam os jornais do tempo, em cópia tal que, depois de desfeita aquela lúgubre farsa, era impossível a permanência no lugar inficionado."
in "A Pedra Bonita e Monte Santo", Os sertões, de Euclides da Cunha, edição crítica e Organização Walnice Nogueira Galvão, Sesc Ubu
O trecho em questão impressiona não apenas pela natureza escultural da narrativa, como se o parnasianismo tivesse se realizado em prosa, mas pela forma como a encerra, declarando que era impossível, mesmo depois de tudo acabado, a "permanência no lugar inficionado." Não sei se Euclides da Cunha tinha isto em mente quando assim encerrou esse relato, porém, a ideia mesmo de o lugar permanecer "inficionado" tempos após o ocorrido, é assombrosa, de uma força poética a que talvez poucos poemas tivessem alcançado, a saber, é algo como um símile que ilustra esse sacrifício tenebroso que ainda iria assombrar o país por muito tempo, moldando-lhe o espírito, como de resto aconteceu à personagem Quaderna, do Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna -- como aliás, ao que parece, é a expressão de um drama íntimo do mesmo Suassuna que carregou por décadas a fio a dor pelo pai assassinado e --, antes dele, no díptico de José Lins do Rego, Pedra Bonita e Cangaceiros, em que uma família inteira infeccionou-se por aquele massacre, inficionando, por sua vez, todos ao redor, dando origem a cangaceiros e estupradores, também apodrecendo as instituições, e por fim corroendo a alma da matriarca, até então uma mulher de muita fé, que, não suportando mais o peso dessa história e suas consequências, tomada pelo ressentimento, pelo ódio e pela loucura, com ver seus filhos serem reduzidos a meras máquinas de matar, se enforca numa casinha da fazenda em que se escondia das forças do governo que estavam caçando seu filho Aparício, chefe do cangaço.
Lendo o conto "O triunfo", de Clarice Lispector, do livro Primeiras histórias, me lembrei do que Pedro Sette-Câmara comentou no Telegram sobre a primeira parte de As horas de Katharina, de Bruno Tolentino, sobre os silêncios que hoje, na era das telas e toda sorte de diversão, não temos mais, e como isso nos levava a ser bons observadores, que éramos capazes de ter atenção, de nos interessar pelas coisas, de olhar demoradamente para elas. A história narrada no conto é muito simples, uma mulher acorda numa casa retirada, numa rua silenciosa, talvez uma casa de campo, uma chácara, e dá-se conta de que o amado dela não está mais ao seu lado, e lembra-se de que se irritara com ela, alegando que lhe tirava a concentração necessária para escrever um romance, que ela sempre se mostrava solícita nos momentos em que ele não queria conversar com ninguém, e resolve ir embora, para um lugar onde suas aspirações intelectuais fossem plenamente respeitadas, e ela, por sua vez, alimenta a esperança de que ele volte (esperança essa que aumenta quando depara, decepcionada, uma confissão de sensação de "mediocridade" escrita num papel que por acaso encontrara, tornando-o assim uma figura por algum momento desinteressante, vulnerável), que lhe diga que foi um mal entendido, uma brincadeira e, enquanto isso, olha as coisas ao redor, lava roupa, toma banho... Enfim, em meio a tanto silêncio, o leitor não deve esperar as peripécias narrativas, mas, por outro lado, depara as modulações do espírito humano muito bem observadas e descritas, e muito bem mimetizadas por uma escrita sinuosa, mas uma sinuosidade sutil, sem obscuridades, que mostra domínio pleno da música da língua. Tenho a impressão de que na era da internet escrever assim e sobre esses assuntos não é mais possível, ao menos não me parece crível.
Mais um texto de minha autoria para a revista Unamuno, dessa vez sobre Pedra bonita e Cangaceiros, de José Lins do Rego. Segue o link: https://unamuno.com.br/cangaceiros-pedra-bonita/
Recebi da Fausto Mag, na pessoa de Eliana de Castro, sua criadora, o convite para escrever um texto introdutório à obra de Bruno Tolentino, na altura de seu aniversário em 12 de novembro de 2020, revista esta em que podemos ler ensaios e entrevistas de grandes figuras do mundo da cultura, com destaque à entrevista com Harold Bloom, sim, uma entrevista exclusiva para a revista, e com Antônio Risério. Aproveitando o lançamento que a editora É Realizações fez de As horas de Katharina, pelo selo Filocalia, para inaugurar a publicação das obras completas de Bruno Tolentino, é oportuno resgatar esse texto que a Fausto Mag me honrou com seu acolhimento. Para lê-lo, neste link: https://faustomag.com/bruno-tolentino-a-guisa-de-apresentacao/
Só tomei conhecimento deste poema pela versão que Bruno Tolentino lhe fez e publicou no Mundo como idéia. Se uso a palavra versão é porque, embora Tolentino resgate para o vernáculo a matéria do poema original é, sem dúvida, outro poema que compôs sobre o mesmo motivo. E não sou eu que o digo, é o mesmo poeta que, entre parênteses, acrescenta um subtítulo, "Uma arte toda sua"; depois li as traduções de Paulo Henriques Brito e de Nelson Ascher. Agora, saindo do forno, ou melhor do whatsapp de Igor Barbosa, esta tradução cuja qualidade e força poética renova o interesse de quem lê poesia. É ocioso dizer que uma nova tradução de um mesmo poema não é como ler um mesmo poema várias vezes, posto que isso seja também uma experiência enriquecedora que nos mostra desse poema algo que se não percebeu nas leituras anteriores, é algo como ouvir um concerto executado por diversos maestros, que é o mesmo e também carrega a assinatura pessoal de cada regente.