quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Soneto 150 de Shakespeare por Vasco Graça Moura: as várias formas de compor um pentâmetro iâmbico.

De que poder tens força tão temível,
que o coração em falha me desvia,
que me faz dar mentira no visível,
jurar que a luz não favorece o dia?
De onde tens tal fazer, de mal, agrado,
que até o refugo dos teus actos vem
em força e garantia tão dotado
que o teu pior, em mim, é sumo bem?
Quem te ensinou a pôr-me a amar-te mais,
se causa de ódio mais escuto e vejo?
Se eu amo o que detestam outros tais,
não deves detestar-me em tal cotejo.
            Se na baixeza meu amor levantas,
mais valho de que tu me ames às tantas.


Quando lemos um soneto do bardo, uma das coisas que nos ocorre é o pentâmetro iâmbico. Ou seja, cinco seqüências de sílabas fracas e fortes. Essa forma tão querida à língua inglesa como o é o nosso heróico é praticada também na poesia do nosso idioma, e não apenas quando se traduz da língua inglesa para a portuguesa.
Muita vez se substitui na tradução o pêntametro iâmbico por decassílabo heróico ou sáfico, a pretexto de respeitar a índole da língua de chegada: Machado de Assis ao traduzir o famoso monólogo (To be or not to be, that is the question) escreveu “Ser ou não ser, eis a questão. Acaso” que é sáfico; Ana Amélia Carneiro de Mendonça: “Ser ou não ser, essa é que é a questão”, com cesura na quarta. Ivo Barroso com “Ser ou não ser... eis a questão” segue o modelo machadiano, mas enfatiza a pausa com reticências, a qual se valer como sílaba fará com que “eis” caia na sexta, e o verso, ao invés de ser um octossílabo, será um eneassílabo com “pretensões” a decassílabo heróico; por outro lado, ao traduzir o décimo segundo soneto, manteve os pés do original: “Quando a hora dobra em triste e tardo toque”.
Casos há de sonetos ingleses não como tradução, mas como emulação ou exercício de composição.  Manuel Bandeira compôs dois sonetos ingleses, e com esse título, sendo distinguidos respectivamente pelos números 1 e 2: “Quando o morte cerrar meus olhos duros”(nesse caso, os três últimos pés têm andamento iâmbico) e “Aceitar o castigo merecido”, ambos heróicos, mas com o ar melancólico dos sonetos de Shakespeare, além dos quatro esquemas de rima. Seguindo mais ou menos a mesma tendência, porque são três esquemas de rima – mais próximos à forma petrarquiana ­–, Bruno Tolentino em “Antevisões da última ante-sala”(O Mundo como idéia) compôs uma seqüência de cinco sonetos, e os três primeiros, ingleses, mas também contaminados pelo heróico: “Quando o corpo ceder e uma primeira”, “Tenho medo é da sarça nas pupilas” e “Mas não... É mais provável (e prudente)”.
Já Érico Nogueira, em Cancioneiro inglês ou de Sandra Gama (O livro de Scardanelli), vai além dos exemplos citados ao manter em alguns versos os pés ingleses: “Não quero já de novo ser banal” e “além de blefe em quantos como eu”. Se considerarmos o leve prolongamento da quarta sílaba, há também o pentâmetro iâmbico em “simulam diferir, simulam mal”. E por fim, os quatro versos finais: “ou tem o crânio cheio ou têm-no oco;/ por isso mesmo, vá se olhar no espelho,/ estando céu e mar e sol à parte,/ quem pensa fazer sua, assim, a arte”, que são tirados ao soneto de abertura.
Vinícius de Morais, a considerar o recurso à semiforte, sugere um pentâmetro iâmbico no seu famoso “De tudo ao meu amor serei atento”. A respeito das semifortes ou dos leves prolongamentos, Said Ali disse que “Os poetas naturalmente não sabem ou não têm idéia clara da lei que rege essas cambiantes de pronúncia. Aplicam-na instintivamente e com acêrto, tomando por guia o ouvido”(Versificação portuguesa, 1948).
Do poema acima estampado, algo como um desconcerto do mundo amoroso,   chamou-me atenção o primeiro verso: “De que poder tens força tão temível”. Vale lembrar que o poeta e tradutor Jorge Wanderley denunciou em Graça Moura o “aferrar-se ao som original, marcada em toda essa tradução[refere-se à Divina comédia]” a tal ponto que  “freqüentemente resultou em ‘licenças’ forçadas”. Mas o exemplo acima, afora sua beleza e força que também se prolongam nos versos seguintes, não me pareceu ter o mesmo abuso da referida tradução italiana e, sobre isso, também segue o nosso modelo heróico. Porém, se não tem os pés ingleses, há uma “vontade” de tê-los. Para ser um pentâmetro iâmbico seria necessário que o pronome relativo  átono “que” se tornasse tônico, mas não é o caso.  Do contrário, seria  forçar a nota. Não usando do recurso às semifortes, Graça Moura substituiu a acentuação pela homofonia da segunda e quarta sílabas. Ou seja, o “que” é átono, entretanto identifica-se sonoramente com o som fechado da tônica de “poder”, completando os pés com uma espécie de “prótese sonora”. Moral da história: o ouvido é o melhor conselheiro.




Um comentário:

  1. Caro amigo, vou futucando aqui, encantando-me a cada verso, como se me pudesse caminhar por cada linha simplesmente. Mas bem o sabemos: não há como, sequer, plagiá-las. São perfeitas demais. Bem, Karleno indicou-me este blog. Gostei muito. Um abraço.

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