quarta-feira, 15 de junho de 2011

OSWALD DE ANDRADE: UM BELO POEMA DE UM BOBO-DA-CORTE DAS LETRAS, E COM UM POUQUINHO DE SOPHIA



OCASO

No anfiteatro de montanhas
Os profetas do Aleijadinho
Monumentalizam a paisagem
As cúpulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte do meu país
Onde ninguém mais subiu
Bíblia de pedra sabão
Banhada de ouro das minas


A primeira vez em que ouvi falar de Oswald de Andrade foi através dos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Pai da Preta Gil(os “baihunos”, segundo Millor Fernandes) que, a partir de seus encontros com os irmãos Campi, passaram a afetar a influência da antropofagia de 22. Não poderia faltar a fortuna crítica que se elaborou em torno deles também. De qualquer maneira, eu era muito interessado na “poética” de suas letras, e julgando que a poesia de Oswald, por ser poesia (que é autônoma), proporcionar-me-ia um impacto ainda maior, fui à sua cata.
Afinal de contas, parecia-me uma aposta lógica: a autonomia do poema, i. e.,  ritmo, música e harmonia se fazem a partir de seus próprios elementos que são as palavras, ao contrário da letra cuja musicalidade é determinada por um elemento a ela externo que é a melodia posta pelo compositor. Basta levarmos em conta a definição de Ricardo Reis, numa polêmica com Álvaro de Campos: “Poesia é a música que se faz com as idéias”. Ou seja, não é a “música” que é acrescentada às “idéias”, são estas que formam e definem a “música”. 
Nessa busca, deparo-me com o volume Pau Brasil(1925), numa edição comentada por Augusto de Campos, que organizou suas obras completas. Eu, que já tinha lido Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e outros poetas de igual quilate, menos por gosto que por obrigação escolar, decepciono-me com as seqüências de poemas pílulas, tão diminutos que escapam à vista e à atenção, além do prosaísmo. É como se houvesse uma troca de um suculento churrasco por uma dieta imposta pela ANVISA. Não deixando os vegetarianos de fora, algo como se as “pastagens”(como disse Vinícius num soneto) tivessem de ser substituídas pela dieta de luz:

Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia (“Senhor feudal”)

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia (“Escapulário”)

O primeiro exemplo é uma anedota ou elemento surpresa, cuja função não vai além de um susto que se dá a algum distraído, supostamente preocupado com decoro, e acostumado a ler poesia. Ou seja, não é uma anedota ou elemento surpresa que estão dentro de um poema, como podemos encontrar a rodo nos poemas de verdade, de Gregório de Matos por exemplo, sem esquecer o Cânone acidental do nosso contemporâneo Marco Catalão. Tudo o que lemos é a própria anedota ou o elemento surpresa. Quanto ao exemplo seguinte, não é necessário ser poeta para escrevê-lo, basta deixar-se levar pelo automatismo mental para conseguir o feito. Por outra, basta ter a intenção que o resto vai no embalo ou basta estar distraído para trocar, também no embalo, uma palavra por outra. Está mais para aquilo que Ferreira Gullar chama de “expressão”, algo diferente de “arte”. A arte, ao contrário de expressão, é aquilo que o artista elabora.  Diante dessa dieta de campo-de-concentração, contento-me com ouvir a dupla de conterrâneos e aos poucos começo a encarar seriamente, e dessa vez por gosto, a poesia de verdade. Ainda no decorrer da leitura, testemunhava uma pletora de parasitismos poéticos, pretensos poemas constituídos de trechos extraídos às cartas e crônicas de viajantes, como é o caso de “As Meninas da Gare”:

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha

Todo o mérito do que acabamos de ler é única e exclusivamente de Caminha(aliás, que bela construção sintática a do trecho: “Que de nós as muito bem olharmos”!). Não ignoro a intenção crítica ou humorística que está por trás disso, e que serve ao propósito de ilustrar os costumes do Brasil desde o período colonial até o século XX, com literatura e documentos representativos de cada época, até que os poemas do próprio Oswald comecem a predominar. Tais seleções ou colagens estão em conformidade com o espírito irreverente do modernismo pindorâmico (o modernismo europeu, ao contrário, não sofria de baixa auto-estima).
Alguns anos depois, ouvi Bruno Tolentino (que, como é público e notório, não era propriamente afeito à poesia de Oswald, embora o achasse infinitamente superior a Mário de Andrade) declamar uns versos de que gostava muito: “e o trem divide o Brasil/ como um meridiano”. De fato, grandes versos. Resolvi, então, verificar o poema a que estes versos pertencem e encontrei-os no mesmo Pau Brasil:

Lá fora o luar continua
E o trem divide o Brasil
Como um meridiano (“Noturno”)

Quando os ouvi declamados pela primeira vez, supunha ser um único verso dodecassílabo. Ainda acho que o seja. De qualquer maneira, vi que não estava diante de qualquer coisa. Só um poeta poderia ter escrito isso. Há certo clima na ambientação do primeiro verso e na ação descrita nos dois últimos, embora não saiba exatamente o que ele quis dizer com isso. Mas é bom. Por outro lado, é o que poderia chamar de um poema de “gênio de lampejos”, ou seja, um tipo de gênio do qual a boa poesia apenas surge acidentalmente, que não se entrega ao trabalho de elaboração, pouco dado a projetos, de maneira que o bom “Noturno” acaba se rebaixando, de algum modo, ao mesmo nível do banalíssimo “Amor/Humor”(Acreditem que isso é todo o poema! Declamar esse poema é tão útil quanto Pavarotti gravar músicas de Madonna, embora realmente ele tivesse feito algo semelhante: clicai aqui e vede...). Por outra, o mesmo gênio de lampejos que cospe um poema ou um verso genial é o mesmo que, graças à lei do menor esforço, cospe banalidades. Ele mesmo é incapaz de estabelecer um critério razoável na hora hierarquizar qualitativamente a própria criação. Com isso, podemos dizer que se por um lado fez boas poesias, por outro nunca foi um bom poeta, quiçá, poeta.
Esses lampejos também se fazem ver em poemas de maior extensão, como os surpreendentes  “Serpentes de fogo procuram morder o céu/E estouram” de  “Sábado de Aleluia” ou ainda os dois belíssimos versos que introduzem o pedestre  “Versos de Dona Carrie”:

A neblina nos segue como um convidado
Mas há um clarão para as bandas de Loreto
Cafezais
Cidades
Que a Paulista recorta
Coroa colhe e esparrama em safras
A nova poesia anda em Gofredo
Que nos espera da Forde
Numa roupa de fazenda
É ele quem cuida da plantação
E organiza a sarraria como um poema
O time feminino nos bate
Mas Cendrars faz a última carambola
Soldado de todas as guerras
Foi ele quem salvou a França na Champagne
E os homens na partida de bilhar daquela noite
Terraço
Rede
Paineiras pelo céu
As estrelas de Gonçalves Dias

Os dois primeiros dodecassílabos são dignos de nota, e o primeiro é um belo alexandrino. Os seguintes não são propriamente ruins, mas sem a riqueza musical dos versos introdutórios, que pedem muito mais que uma seqüência de fragmentos modernosos, restam decepcionantes.
Poemas de pequeníssima extensão não são necessariamente ruins nem resultado de um mero lampejo. Manejados por um poeta hábil, equivalem aos poucos acordes que se prolongam num belo desenho melódico, em formas bastante definidas. A portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, indubitavelmente uma poetisa de porte, grande artesã do verso, praticou essa modalidade:

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Não tem nada em comum com as gaivotas(“Tarde”)

Ainda não é o melhor exemplo, é simplesmente uma mulher que queria dizer para alguém “eu te amo”  ou, à moda portuguesa, “amo-te” e acabou falando de passarinhos. Tudo bem, não deixa de ser tocante deixar de dizer o que realmente se queria para falar de outras coisas na esperança de sua verdadeira intenção ser percebida. Há um bom ritmo, que deixa entrever a artífice experiente dos grandes poemas de fato, principalmente o primeiro verso, mas o imagístico “Noturno” de Oswald, mesmo sendo um acidente, ainda sai ganhando. Infelizmente, a antologia da poetisa portuguesa que saiu pela Companhia das Letras(2004) deu muita atenção a esse tipo de poema. Aqui, leva-se muito a sério o que aos europeus não passa de mera brincadeira e que por ser brincadeira chamam de experimentalismo. Ou seja, apesar da grandeza da poesia feita na Europa, divulgam-se muito por nossas bandas os “mafuás de malungo”. Mas voltemos a Sophia:

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços. (“Praia”)

Esse começa a melhorar, não há o devaneio – ainda que bem metrificado – do exemplo anterior, tem mais objetividade por conta do seu descritivismo e é bem sugestivo. O primeiro verso tem o ritmo hesitante e mais prolongado de ondas se formando, dando-nos uma visão mais ampla do mar, e o último acelera um pouco, encerrando-se com desabamentos e atropelamentos consonantais, reproduzindo assim as ondas que se quebram ao chegar ao seu destino.


Numa noite sem lua o meu amor morreu
Homens sem nome levaram pela rua
Um corpo nu e morto que era o meu.(“Cante Jondo”)

Esse tem um verso a mais. É também mais rico. O primeiro verso, por sinal, evoca a bela ingenuidade dos antigos versos portugueses (Sophia foi uma grande emuladora de Camões e Pessoa e do nosso João Cabral). Quantos antigos versos portugueses não teriam começado dessa forma ou de modo parecido? Não se limita ao puro imagismo de “Tarde” e vai além do descritivismo de “Praia”, e trata de forma muito eloqüente de algo que realmente toca a todos: o sentimento de perda. “Um corpo nu e morto que era o meu” ilustra, com muita eloqüência, a inalcançabilidade daquilo que fazia parte da vida de alguém. Lembra um trecho de um sermão de Vieira: “Vós quereis saber o que é alma? Olhai primeiro para um corpo sem alma”. É genial e é de fato artístico. Já não é expressão.

Não poderia deixar de mencionar “A morte do cigano”, a nona parte de O Cristo Cigano.

Brancas as paredes viram como se mata
Viram o brilho fantástico da faca
A sua luz de relâmpago e sua rapidez

Bastante engenhosos, e com sotaque cabralino. A lâmina pode ser vista nos três versos até a palavra “relâmpago”, e quando chega a “e sua rapidez” coincide com o seu desaparecimento ao perfurar a vítima. Em outras palavras, há apenas dois verbos, ver e matar, e o movimento da arma não é sugerido por nenhum deles, mas pela descrição da polidez da lâmina, ou seja, os substantivos assumem função verbal.
Não só de pílulas para emagrecer e prosaísmo viveu o nosso poeta playboy. Lendo ao acaso uma antologia escolar, contendo poesias de diversas épocas, e publicada nos anos setenta, eis que me deparo com o poema “Ocaso”  e constato que o autor é Oswald de Andrade. O poema foi publicado também no volume Pau Brasil, na seção “Roteiro das Minas”. Tem dois belos versos que grandes poetas muito gostariam de ter escrito: “Bíblia de pedra sabão/Banhada de ouro das minas”. Depois do que ele viu, esses versos era a única coisa que podia dizer – e a mais certa –, e que dão a impressão de que foi a única coisa séria que ele viu em sua vida e com igual seriedade encarou. Não é mais alguém que se encanta com os postes, edifícios e prédios de São Paulo e cujo encanto é proporcional à pressa com que passa diante dessas coisas para dar atenção à próxima novidade que fará esquecer a anterior. Tudo é atentamente observado, os versos caminham mais lentos. É como se o poeta estivesse diante de algo tão espantoso que paralisa o corpo, tira-lhe a habilidade dos movimentos para que possa contemplá-lo como de fato deve ser contemplado.
Os versos introdutórios, curiosamente, tem algo de pomposo que Mário de Andrade, na sua invariável afetação, adoraria ter feito(No anfiteatro de montanhas/Os profetas do Aleijadinho/ Monumentalizam a paisagem), são anti-Oswald, diria –,  de qualquer maneira bonitos.  Monumentalizar a paisagem é o mesmo que conferir a ela um sentido, é algo que só pode ser feito por alguém que respeita o dom que lhe foi conferido. Diria que é um poema que de fato pode ser encarado como tal, além da vantagem de não ser programático.
Disse há pouco que esse poema descreve a única coisa séria que, talvez, o poeta playboy viu e com igual seriedade viu. Se, de algum modo, não completou dignamente as linhas: “A neblina nos segue como um convidado/Mas há um clarão para as bandas de Loreto”, por outro lado, em “Ocaso” – cujos versos, posto que belos, não têm a graça rítmico-harmônica desses dodecassílabos –, percebe-se uma realização que certamente teria sido maior, e não simplesmente felizes acidentes de percurso, se Oswald de Andrade não se contentasse apenas com o “borbulhar do gênio”, não se mostrasse tão satisfeito com rascunhos que apresentava como algo acabado e, por fim, não transformasse a poesia num brinquedo de um bobo-da-corte dos salões paulistas.





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