quarta-feira, 4 de maio de 2011

ESCRITÓRIO DA MESBLA de Alberto da Cunha Melo


Quando muito, nos permitiam
ouvir um assovio de fora
mas não podíamos voltar
para um lado nossas cabeças.

Na grande sala não havia
um só momento em que tivéssemos
dolorosa oportunidade
de comparar os nossos rostos.

Um de nós ocultava sempre
um livro escuro na gaveta,
e o consultava nos instantes
em que devia descansar.

Outro, numa mesa afastada,
(menos erudito e mais triste)
colecionava no intervalo
selos de países distantes.

No escritório, só raramente,
íamos contemplar na parede
o gado manso que partia
na paisagem do calendário.


Essa é a segunda lírica que compõe a série “Poemas anteriores”, escrita nos anos 60 e 70, e reunida num volume publicado em 1989 que leva o mesmo nome(Ed. Bagaço). (Em tempo, qualquer página desse volume é garantia de uma grande leitura.) A “Mesbla” do título era uma loja, se não me engano, de eletrodomésticos da qual guardo alguma lembrança e que eu pensava só haver em Feira de Santana, e já mais velho pensava ser criação de infância. Não sei se existe ainda. Na verdade, lembro-me mais de suas propagandas que das lojas em si.  Só o poema de Cunha Melo me trouxe tal lembrança.
O poema em questão é algo como um poema-crônica, gênero em que Alberto da Cunha Melo mostrou-se mais hábil e bem mais interessante que Carlos Drummond de Andrade. Afinal, em Drummond esse gênero era meio que vazado de alguma demagogia, tinha algo de político que “só ama o povo durante as eleições”, não era convincente. Poemas do tipo “A Carlito” e “Canção amiga” ou ainda “são lembranças/ da vida ao teu menino, que ao sol-posto/ perde a sabedoria das crianças.” estão mais para material de apoio para as aulas de pedagogia e cursos de sensibilização em delegacias de polícia desarmamentista. Drummond é mais convincente na amargura (A injustiça não se resolve./ À sombra do mundo errado/murmuraste um protesto tímido./Mas virão outros), na melancolia de natureza amorosa (Deu-me Deus um amor em tempo de madureza), nas lembranças de família(E não gostavas de festa.../ Ó velho, que festa grande/ hoje te faria a gente) e em outros tipos de preocupações. Ele não tinha vocação soteriológica nem vocação para simpatia. Seria um péssimo poeta romântico(Escrever bobagens tão lindas e tão comoventes como as de Cassimiro de Abreu exige um gênio muito específico que só ele tinha). Quando Drummond se metia a amar o mundo não era muito diferente dos pingüins mafiosos e mal-encarados do desenho Madagascar que, toda vez que viam a imprensa chegar ao zoológico do qual sempre tentavam fugir, diziam um ao outro: “Continuem sorrindo...” Se quiserem sentir emoção com a doçura drummondiana, leiam algo que tenha a ver com seu amor a indivíduos concretos(o pai em “A mesa”) e que dizem respeito a sentimentos igualmente concretos(o comovente “Tarde de maio” e “A máquina do mundo”), sem esquecer, é claro, os eloqüentes “Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”.
O poema-crônica de Cunha Melo, porém, não se propõe a salvar a humanidade nem a comprar um enorme estoque de ar-condicionado para salvar o mundo do aquecimento global. É a estetização de uma dor solitária em meio a um maquinário diabólico. É uma galeria de incompreendidos, ensimesmados em sua própria dor, ou com tanta dor que nada sentem, indiferentes...
Enfim, essas coisas que contentariam o pensamento negativo adorniano povoam sua obra até culminar na sua obra máxima Yacala(1995), que é uma das narrativas poéticas mais dilacerantes já compostas em nossa língua. Diria que a personagem título vê (e não vê) sua alma ser quebrada a cada momento até o seu final doloroso, evocando aqui o grande romance de Karleno Bocarro. Diria ainda que As almas que se quebram no chão encontra em Yacala uma tradução poética exata ou, como não, sua profecia.
“Escritório da Mesbla” é um poema composto de cinco quadras, com versos brancos e octossilábicos de variada acentuação e que parece explorar o limite em que, uma vez ultrapassado, o verso se torna prosa. Parece despir-se de maiores ornamentos para ressaltar o conteúdo, o que é uma das propriedades do que Pedro Sette-Câmara denomina de “estilo baço”.
Nessas quadras, a redução do indivíduo a nada é acentuada não pela inveja dos poderosos ou pelas perseguições monstruosas que ressaltem o valor do indivíduo que é perseguido, mas por uma descrição de um ínfimo cotidiano de um ambiente de trabalho. É de se perguntar: quem é ou o que é essa força oculta que rege o verbo “permitir” do primeiro verso? É um patrão impiedoso? É Matrix? Impôs ele o sistema de delação e de vigilância mútua qual vistos nos regimes nazi-comunistas? Os prazos a cumprir fazem os funcionários se comportar dessa forma? Tudo isso é plausível. Também pode ser um exagero. Afinal, as personagens citadas em cada estrofe parecem carregar um sentimento de medo que antecede sua presença naquele ambiente, uma espécie de sentimento que parece ser ilustrado por “e a vossa glória, nesta vida/ foi só morrerdes escondidos,/ podres de dor e remorsos”, segundo no-lo diz Cecília Meireles.
Esse sentimento de medo por antecipação parece ser reforçado por este verso: “Um de nós ocultava sempre/ um livro escuro na gaveta”. Esse “escuro” pode significar “escondido”, “obscuro”, “misterioso”. Poderia dizer também que o interior da gaveta fechada, isolado da luz, escurece os objetos nela guardados. Claro, essa é a parte óbvia do verso. Observemos, porém, que esse “livro escuro” não é muito diferente de quem o consulta “nos instantes/ em que devia descansar”. Um se confunde tristemente com o outro, da mesma forma que o interior da gaveta se confunde com o “opressivo” ambiente de trabalho. Por que o opressivo entre aspas? Não estaria eu ultrapassando os limites realmente impostos pelos versos? Não seria o ambiente de trabalho opressivo de fato? No poema, porém, enquanto o sujeito do verbo “permitiam” é um mistério e tem a mesma paupabilidade de “o sistema” de Tropa de Elite II, o auto-recolhimento é o que parece haver de mais concreto. O referido livro isolado numa gaveta, enquanto não é aberto, parece refletir a personalidade dos “incompreendidos”, que esperam que os outros os abram e descubram sua riqueza interior, o que parece ser reforçado pela estrofe seguinte na qual aparece alguém “menos erudito e mais triste” que “colecionava no intervalo/ selos de países distantes”.
Dessa maneira, não parece haver propriamente uma anulação do homem, mas a sua auto-anulação até o mais completo imobilismo que dá uma forte impressão de que estão mais preocupados com parecer eficientes que ser de fato eficientes(Na grande sala não havia/ um só momento em que tivéssemos/ dolorosa oportunidade /de comparar os nossos rostos.)  E tal imobilismo contrasta – num jogo de perspectiva de grande genialidade  – com a imagem da última estrofe, que contém um dos versos mais imaginativos da língua portuguesa: “No escritório, só raramente,/íamos contemplar na parede/o gado manso que partia/na paisagem do calendário.”
A partir de tal verso, com essas imagens tão doces quanto belas, vemos algo dolorosamente surreal: a fotografia é colorida e o ambiente em que ela se encontra é preto e branco.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Pergunto-me quando hão de afinal relançar o "Poemas Anteriores", de Alberto da Cunha Melo? Mereceriam sorte diversa, e mais alta, as obras do poeta que, na opinião dum mero leitor, seria o maior em vernáculo dos últimos 50 anos, caso não houvesse o Tolentino.

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  3. No volume Dois Caminhos e uma Oração publicaram parte dos Poemas Anteriores, que é A Oração pelo Poema, que é uma obra prima. Mas teria sido justo também publicar o restante que não fica tão atrás.
    Abraços
    Jessé

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  4. Caríssimo Jessé,

    Sou completamente apaixonado por este poema, como por toda a obra do Alberto da Cunha Melo e, ao analisá-lo, mostraste, mais uma vez, toda tua acuidade de sentidos, teu raciocínio rápido e centrado, além da tua sensibilidade, tão peculiar, para a apreensão e mais... foste de uma grande e mui satisfatória coragem, principalmente em tuas considerações sobre Drummond (outra lírica pela qual tenho grande apego, como sabes), pois sempre é bom ouvir alguém que, imbuído do verdadeiro espírito crítico, constrói a sua analise pela negação dos estereótipos, dos rotulismos e do cooperativismo ideológico.

    Viva a Poesia pura e viva!

    Um grande abraço,


    Silvério Duque

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