domingo, 27 de março de 2011

MÚSICA DAS IDÉIAS III: O tronco a que se abraça a grácil trepadeira


I. 61

O tronco a que se abraça a grácil trepadeira,
a lâmina na mão de uma breve vitória
abrindo, abrindo uma clareira na memória
dentro da selva estrita de uma existência inteira;

esse dom de trombeta ignando-se à beira
do provisório, porque a festa é provisória,
essas rebentações de espuma ardendo, a glória
sem depois de uma sempre lenha de fogueira,

toda essa cena luminosa é merencória
porque a melancolia é a luz dessa clareira.
O sonho é ainda o lenhador da velha história,

o bosque é sempre o mesmo e sempre escuro e, queira
ou não queira, começa onde acaba, à maneira
da fênix triunfal, sempiterna e ilusória.                                 



Já falei outrora da poesia que, como a música, deve ser solfejada e como pode ser reconhecida antes pelo som que pelo conteúdo. Já expliquei também que a relação melódica entre dois poemas não ocorre necessariamente entre formas afins nem entre medidas afins, que o esquema métrico ou acentual diferentes não afasta tal relação. Mais:  já falei, nalgum momento e noutro lugar – e que numa hora oportuna ficareis sabendo –  da minha obsessão pelo sétimo soneto de Camões, que tem, salvo exagero, o mais belo e o mais bem elaborado verso de nossa língua: “O fogo que na branda cera ardia”.
Fiquei com esse verso na cabeça dias a fio até que num determinado momento outro verso me ocupou o espírito: “O tronco a que se abraça a grácil trepadeira,” que eu vivia a declamar com meus botões sem saber quem era seu autor, que na verdade é alguém cujos versos conheço muito bem e diversas vezes citado neste espaço: Bruno Tolentino.
Percebi algum tempo depois que a substituição na memória de uma poesia por outra não se deu de forma arbitrária como das outras vezes: tinha um método. Ou seja, percebi que o lembrar-me do poema de Camões e em seguida o lembrar-me do de Bruno Tolentino não foi simplesmente uma substituição. Uma relação já estava sendo estabelecida. 
Como disse há pouco, não é necessário que o metro seja o mesmo para que essa relação aconteça. O verso de Camões é decassílabo, o de Tolentino,  alexandrino. Por outro lado, a acentuação e a localização de alguns elementos estratégicos ajudaram bastante. Os dois sonetos têm em comum a primeira tônica na segunda sílaba(“O fogo” e “O tronco”) e ainda há o reforço do uso do mesmo artigo do gênero masculino seguido de uma palavra dissílaba.  Tanto o pronome relativo(que) de um como de outro cai na quarta sílaba e tanto as vibrantes camonianas como as tolentinianas estão na sexta(“branda” e “abraça”), além da acentuação na oitava(“cera” e “grácil”). Ademais, ambos os versos têm o andamento lento e encontram repouso melódico na última tônica(“ardia” e “trepadeira”).
Neste poema da primeira parte da Imitação do amanhecer, é cantada a realidade fugidia e as várias tentativas frustradas de compreendê-la em todos os aspectos, de dominá-la(“a lâmina na mão de uma breve vitória/ abrindo, abrindo  uma clareira na memória/dentro da selva estrita de uma existência inteira”; “essas rebentações de espuma ardendo, a glória/ sem depois de uma sempre lenha de fogueira,); também traz elementos da série dos cervos da Lapônia, que testemunham esse aspecto fugidio metaforizado pelo pôr-do-sol, o qual só retornará vários meses depois(Já não cabe mover-se[o cervo]] com a mesma agilidade,/ desapetece-lhe correr na luz agônica, III-104) e tem uma relação direta com o último soneto da “Imitação da música”, que é a última parte de O mundo como idéia(...Estamos sós/ e todos condenados a perder/ mas celebremos juntos a sentença/ e a liberdade em vão do ser que pensa/ e repensa essa luz que vai morrer.)
A imagem desse soneto – que é de um bosque sendo explorado – ao que parece, foi sugerida por uma pintura renascentista, A caçada, de Paolo Uccello, que muito obcecou o poeta e que lhe serviu de base para sua opera omnia, com destaque para About the hunt(1978) e sua versão algo mais estendida, O mundo como idéia(2002).

A floresta retratada no quadro parte de um modelo real, porém um tanto impenetrável para quem pretende percorrê-la em alta velocidade, seja a pé seja a cavalo. Mesmo assim, um verdadeiro exército de caçadores desbrava-a como se estivesse brincando de picula no parque do Ibirapuera, sem maiores empecilhos. Para isso, o artista deu um jeitinho: pintou as árvores sem os galhos mais baixos que poderiam impedir o livre movimento, que poderiam impedir a entrada de homens montados. Inclusive, deixou a prova do “crime” na própria pintura. Se observarem, os troncos guardam a marca dos cortes e os galhos podem ser vistos no chão.
Finalmente, por um lado, vemos uma floresta real que, graças ao pincel(a “lâmina na mão de uma breve vitória”) torna-se uma “floresta mental” –  com direito a homens, cavalos e cães com a visibilidade de vaga-lumes na selva selvaggia e aspra e forte, como se houvesse da parte do pintor a intenção de desafiar as trevas. Por outro, não é difícil perceber que, mesmo assim, a escuridão original permanece; os galhos foram cortados, mas a luz não avança, afinal “O sonho é ainda o lenhador da velha história,/o bosque é sempre o mesmo e sempre escuro(..)”

2 comentários:

  1. ...traigo
    sangre
    de
    la
    tarde
    herida
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
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    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    JESSE DE ALMEIDA

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE CHAPLIN MONOCULO NOMBRE DE LA ROSA, ALBATROS GLADIATOR, ACEBO CUMBRES BORRASCOSAS, ENEMIGO A LAS PUERTAS, CACHORRO, FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER ,CHOCOLATE Y CREPUSCULO 1 Y2.

    José
    Ramón...

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  2. Muita gentileza da sua parte, meu caro, a bela postagem poética. Seja bem vindo ao blog.
    Abraços

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