segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Um soneto de Patrice de Moraes


Teu corpo exala um cheiro inconfundível!
Fragmenta-se atrás dele um só desejo
em mil e um cachorros em cortejo
farejando o intocável no impossível!

Com uma devoção inexaurível
inalo-o como um solo sertanejo
que absorve a santa chuva de sobejo
após anos de seca corrosível.

Teu cheiro para mim é o manifesto
da carne apimentada pelo gesto
do amor quimicamente transformado

em síntese olfativa de uma luz
que sedutoramente me conduz
a um plano tão profano quão sagrado!

Esse é o sétimo soneto do inédito Amor em carne viva, do meu conterrâneo Patrice de Moraes. Também um dos meus preferidos. Em alguns casos, um verso só tem força em função de outro. O de abertura, por exemplo, simplesmente diz: “Teu corpo exala um cheiro inconfundível!”. Esse negócio de exalar “um cheiro inconfundível”, para um desavisado, parece coisa do cantor Wando após ter lido Jorge Amado e Cassandra Rios(Essa tirei do baú).
Em tempo, Wando é responsável por um dos melhores títulos da MPB: Ui-Wando de paixão...
Esse conteúdo, por outro lado, tem uma bela melodia proporcionada pela sutil ondulação do pentâmetro iâmbico. A segunda sílaba de “inconfundível” é uma semiforte. Essa ondulação, por sinal, ilustra aquela imagem clássica dos desenhos animados: a de alguém flutuando deliciosamente no odor de uma comida.
Dentro desse mesmo espírito, lemos na sexta seqüência de Minha Bahia(Mondrongo, 2013):

e do cheirinho
comprido da cabocla sorrateira
que vez por outra um olhar sutil esgueira
do olhar de quem dirige-lhe um versinho.

Conferir ao cheiro dimensão física, "cheirinho comprido", é genial! Mas que quis dizer com isso? Para ser mais preciso, que quis sugerir com isso? A imagem igualmente impressionante de "mil e um cachorros em cortejo/ farejando o intocável no impossível" com aquela se relaciona, inclusive pela altíssima qualidade erótica. Se nesta, como foi dito, a imagem de alguém flutuando, tal se carregado pelo mesmo cheiro, se nos desenha, naquela vemos alguém, um paquerador inveterado, sem dúvida, estirando o pescoço ao máximo para sentir o cheiro da cabocla, enquanto esta se afasta, até o limite do possível. 
Acontece -- voltando aqui ao soneto -- que logo após, surge um verso, cuja beleza começa a falar por si mesma: “Fragmenta-se atrás dele um só desejo”. De fato, um belo verso, parece um suspiro de prazer: é sucedâneo do corpo de que fala. Reparem que a melodia dos versos, principalmente dos quartetos, tem algo de suspensão, pede uma elocução lenta, bem retida, algo como o símile do ar que prendemos com o fito de reter o que nos agrada. Desse modo, o verso ui-wando-de-paixão começa a mostrar-se justificado e expressivo, até que de repente o quarteto se encerra com os impressionantes “em mil e um cachorros em cortejo/ farejando o intocável no impossível!”. (Se me permitem um exagero que reflete a realidade, essa é uma das melhores imagens a serviço da poesia com que já me deparei. Nosso clássico, pois, vem de Conceição do Jacuípe, a poucos quilômetros da minha cidade, Feira de Santana, no Interior da Bahia.) Ou seja, a coisa começa a ficar séria: o que começou como um estratagema verbal de Wando para levar Rita Cadillac e Gretchen a algum motel que realiza fantasias eróticas da terceira idade, acaba por ser um comentário contundente à natureza do desejo(Equivalente sugestão plástica encontramos no poema-abertura de Dois, de Érico Nogueira, quando fala de uma Roma como um “poço/ de secreções e beijos de granito.”): imagem essa que ilustra um querer tão desesperado que acaba por não ter outro objeto que não a si mesmo, o que é reforçado pelos soberbos:

Com uma devoção inexaurível
inalo-o como um solo sertanejo
que absorve a santa chuva de sobejo
após anos de seca corrosível.


E graças à força sugestiva dos sucessivos enjambements(mais uma vez, a pertinência desse recurso), com sua propriedade metamórfica, a fileira canina parece transformar-se numa monstruosa serpente da qual não conseguimos visualizar suas extremidades.
Este soneto ocupa a primeira parte do livro, intitulada “Do corpo”, em que o amor e o prazer sensualista ora se harmonizam, ora disputam espaço de tal modo que o prazer propriamente dito, e suas infinitas exigências, encontram no desespero sua tradução.
Tal luta chega ao fim na segunda parte, “Da alma”: o amor finalmente parece encontrar uma via pela qual respirar - uma vez que os dois amantes voltam a perceber um ao outro e assim podem finalmente dizer, numa engenhosa e doce metáfora: “Nós dois nos conhecemos como a palma/ do coração que bate em nosso peito.”


Um comentário:

  1. Poesia sem medos: sem medo de mostrar suas influências, de apontar para as fontes de onde se embebera, seja uma poetisa grega, morta a mais de vinte e seis séculos ou um mineiro introspectivo, cuja derradeira herança foi um livro de versos eróticos; seja um poeta português que foi tantos ou um paraibano que não foi menos que único.

    Poesia sem medo de mostrar sem disfarces e subterfúgios ou de encontrar aquela liberdade presente nas formas fixas que só um grande poeta sabe dar e reconhecer. Sem medo de não se mostrar pessoal e sincera, sem perder a boa e velha veia fingidora. Sem medo de ser poesia pura e depurada. Poesia como poesia deve ser.

    E para ser possível obter algo assim faz-se necessário munir-se de três grandes e indispensáveis requisitos: o talento a disciplina e o amor ao que faz que a tudo obriga.

    Quando me refiro a poesia de Patrice de Moraes, refiro-me a uma poesia que sempre se quer cinética, que pretende romper os limites da impressão simplória e alçar à consubstanciação da mais pura e didática alegoria, ou seja, uma poesia que substitui o abstrato pelo aparentemente concreto, ou, como melhor definiu Coleridge, citado por César Leal em seu Os cavaleiros de Júpiter, uma “transposição de noções abstratas para uma linguagem de cores”.

    Assim, cada poema de Patrice faz-se de imagens intencificadoras, dentro de um sistema que permite muito bem a isso; uma imagem representando um conceito ao qual se pretende, ou, simplesmente, comunicar, por meio de imagens puras e gradativas, o despertar dos sentidos, onde certas questões, como a do erotismo, são bem menos um assunto do que uma maneira de metaforizar, como nos dirá Jessé de Almeida Primo: “nesse sentido, sua poesia é tão erótica quanto toda poesia de qualidade deve ser, pouco importando seu assunto”.

    Mas é, evidentemente, o próprio poeta quem nos dá o melhor exemplo...

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