sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Um poema de Bruno Tolentino: Tristeza como conforto


Vinte anos depois revelaram-lhe o erro:
que o Tzarevitch, que se presumira morto,
sobrevivera e ia voltar! – “Ah, mas e o corpo
que eu sepultei, que embalsamei no desespero?”

geme a rainha-mãe. – “Que fazer desse enterro
de vinte anos de paixão? Não, esse outro,
ou qualquer outro vindo agora ao meu encontro,
eu não conheço ou reconheço e não o quero!

Eu tenho um morto que me ocupa o coração...”
A cena impressionante da tragédia de Schiller,
a amor da dor total como consolação,

entendo-o muito bem: eu não quero o elixir,
o milagre tampouco, quero a minha paixão                     
póstuma – e dar-lhe-ei tudo o que me exigir!



Escrevi aqui mesmo um texto sobre a tristeza cultivada até o paroxismo. Tristeza essa que não pode ser traduzida senão na imagem de uma pedra. Níobe, após desafiar uma deusa, vê seus sete filhos serem exterminados um a um. Chora e afunda na melancolia de tal modo que um destino piedoso a petrifica, transforma-a numa pedra que chora, numa fonte.
Uso o termo piedade com a consciência de ser uma imprecisão de linguagem, uma vez que não é algo existente nas crenças que giram em torno das tragédias. Um mundo em que toda vida é determinada pelos deuses não permite perceber a diferença entre gestos generosos e vilanias. Tudo se resume a caprichos divinos. Tudo é medido pelas conveniências divinas. Não é à toa que René Girard diz que se Deus determinasse a vida do homem, não seria possível distingui-Lo de Satanás.
A leitura do soneto acima(III-95), de Bruno Tolentino, d’A Imitação do amanhecer, fez-me lembrar de um trecho das Confissões, de Santo Agostinho. Quando discorre sobre a tragédia, mostra perplexidade com o fato de o público ir ao teatro para presenciar aquilo que jamais quereria para sua vida. Essa perplexidade intensifica-se ainda mais ao perceber haver da parte desse público certo prazer em se entristecer com as desgraças encenadas no palco. Daí que ele fala do conforto que as pessoas encontram nas lágrimas.
De minha parte, toda vez que me deparo com um bom romance, uma boa tragédia e um bom poema e compartilho da tristeza ali tratada, gosto de voltar a essas leituras na esperança de que aquela emoção se manifeste outra vez(Um coração não tem como ter muito apego/ por fantasmagorias, mas tudo acha lugar/ na alquimia do verso(III-92)).  Há anos, por exemplo, que volto à leitura dos três últimos capítulos de Quincas Borba devido à emoção que sinto ao ler a descrição da morte de Rubião e a de seu cão ou ao trecho do último capítulo de Memorial de Aires:

Ao transpor a porta para a rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro: digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.


A tragédia de Schiller citada pelo narrador é ponto de partida para reflexão sobre uma ausência que preenche, aquilo que dois de seus versos dizem muito bem: “Eu tenho um morto que me ocupa o coração....” e “o amor da dor total como consolação,”. Ambos os versos dizem exatamente a mesma coisa, e essa afinidade também é manifestada pelo fato de ambos seguirem o mesmo esquema de rima anasalada e aguda(coração/consolação).  Dois versos para dizer a mesma coisa confere ao poema uma qualidade didática. Mostra duas naturezas de linguagem que refletem, por sua vez, duas personalidades em contextos diferentes: o de quem está vivendo num presente tenso, doloroso; e o de quem recorda algo igualmente doloroso, mas conta com o passado o suficiente para manter a sobriedade. O primeiro exemplo pertence a uma voz perturbada pela emoção, em que o lirismo desabrido se faz presente, e cujo único modo de expressão possível é o da linguagem pictórica; o segundo é a voz do narrador, alguém com mais controle sobre seu espírito e, por isso, consegue sintetizar numa linguagem conceitual e objetiva toda a trama.
Tal recurso também encontramos n’A balada do cárcere, de 1996. Dividida em três partes, a primeira e a terceira pertencem a do narrador, que é sempre objetiva, descritiva(Era o 212!/ Voltava a cara, ou as costas,/ se alguém o chamava Ambrose(...)); a segunda parte, pertence ao numeropata, à alguém tomado pela loucura(... E a letra dela,/ a primeira, me busca e me martela/ ouvido adentro a mesma despedida). Situação análoga também encontramos em Pessoa na elaboração dos heterônimos. O arrogante caipira português(como a maioria dos caipiras), Alberto Caeiro, não consegue falar senão por meio de metáforas relacionadas à vida do campo, ao passo que Ricardo Reis, mais culto, abre mão do excesso de metáforas e pictorismo em favor de uma linguagem mais elaborada, mais bem explorada nos seus recursos, qualidade de que participa o próprio Pessoa e até mesmo o escandaloso Álvaro de Campos.
“O amor da dor total como consolação” tem a força de um conceito – parafraseando Gilberto Freyre – “tocado em nervos”. Por meio de uma linguagem controlada se manifesta uma dor exasperadora:  a dor da perda significa que não se está sozinho, cultivar essa dor tornou-se um sucedâneo do companheiro morto de tal modo que a simples possibilidade de seu retorno perturbaria o equilíbrio dessa convivência insana. Isso não é muito diferente da nossa própria experiência. Quando perdemos uma pessoa que nos é querida, cultivamos o hábito de falar sempre dessa pessoa, recordar alguns episódios de sua vida, hábito esse que passa a substituir sua presença. (Bem sei que delirar/ de amor, é-me impossível sem virar pelo avesso/ o estupor do sensível, mas deixai-me abraçar/ e contentar esse fantasma, que eu mereço/ qualquer consolação que a ilusão me alcançar... (III-92)) Enfim, algo parecido ao que não mais existindo “tem aquela existência do que fere(Marly de Oliveira)”  encontramos também na já citada A balada do cárcere, principalmente na segunda parte em que a personagem fala da amada que se tornou mais presente após tê-la matado, presença essa que não é propriamente desejada, por ser uma imposição da loucura:

É preciso acordar, mas quem consente
em não matar também? Pergunto-o a mim,

que esganei o que amava e de repente
por uma voz que eu mesmo esrangulara
ouvi chamar meu nome novamente!(“O espectro da rosa”)

O monstro que eu matei deixou-me a marca,
suas pernas abertas ante a Parca

aparecem-me em tudo: é a letra M,
a da Medusa que eu amei, a barca
sem amarras, sem remos e sem leme...(“O espírito da letra”)

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