quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Música das idéias: Olavo Bilac e seus dois contemporâneos do século XXI


 
Ouvir estrelas”-Marco Catalão

Vocês dirão: “Coisa de bicho-grilo!
Ouvir estrelas, ver ETs...”. No entanto,
a quem me criticar, direi, tranqüilo,
que eu também duvidava. Hoje, de tanto

ver óvnis toda noite, nem me espanto;
pousam no meu quintal, e eu nem vacilo.
De madrugada, às vezes, me levanto,
abro a janela e espio-os em sigilo.

Vocês dirão agora: “Amigo louco,
você cheirou? Fumou? Bebeu um pouco?
O que os ETs farão no seu quintal?”

E eu lhes direi: “Aqui ninguém me engana!
Por que cruzam o espaço sideral?
Para colher meus pés de marijuana!”.


(“Dois”)- Érico Nogueira

Serrotes, chaves, chaves e martelos;
parafusos e pregos e a bigorna;
– e nada chega a reparar os elos,
e entre cabeça e tórax nada orna.

A noite derreteu quando, amarela,
a voz do dia “fogaréu” gritou:
e a palavra de cera de uma vela
– a palavra ocular – se incinerou.

Na região densíssima que habitam
espadas japonesas e outra poucas,
onde o sopro, onde a dor, que não gravitam,
coisas leves demais, ou coisas ocas?

Armaduras de membros desiguais,
insistindo na cópula impossível,
é isto, amor, que somos; quanto ao mais,
é entre o aço e a treva intraduzível.


Os mestres tornam-se fantasmas quando os poetas resistem às suas influências. Aquele que pretende ser o marco zero nada mais consegue senão condenar-se à nulidade. Não é à toa que as manifestações que surgiram com essa pretensão nada mais são que abstrações. Ferreira Gullar, que já participou do movimento concretista, disse que as poesias produzidas por esse movimento não eram concretas, mas abstratas.
Gullar também classifica os ready-mades, instalações e coisas parecidas não como obras artísticas. Chama-as, acertadamente, de “expressões”.
Só se consegue ser alguma coisa quando se tem pai, quando se tem avô...
Os dois poemas acima estampados vêm bem a propósito. O primeiro, de Marco Catalão, que faz parte do seu Cânone acidental; o seguinte, de Érico Nogueira, do seu mais recente livro, Dois.
O soneto de Marco Catalão faz parte de uma série de poemas que no seu conjunto contam a história da poesia de língua portuguesa. Vemos emulações de poemas do sec. XVII ao sec. XX. É um caso, de resto, curioso: imagine um homem comum, capaz de expressar seus sentimentos com a mesma desenvoltura verbal manifesta na nossa melhor poesia e dentro da sua pauta.
Tal é o exemplo de “Ouvir estrelas”, como bem podem ver, tirado ao décimo-terceiro soneto da série “Via láctea”(Ora (direis)ouvir estrelas! Certo). O primeiro verso, por exemplo, segue o mesmo esquema sáfico. Que a sílaba forte de “ouvir” do original não confunda. Perde sua força diante da segunda sílaba de “estrelas”.
Entre os dois poemas há uma relação bem divertida, a começar pela abertura (“Ora(direis) ouvir estrelas! Certo” & “Vocês dirão: “Coisa de bicho-grilo!”). A elucubração típica do romantismo do poema de Bilac* encontra sua tradução nos delírios de um maconheiro-cult-alternativo-que-amava-raúl-seixas-bob-marley-e-manoel-de-barros. É, pois, um poema que compreende muito bem o espírito do nosso tempo: tirando a educação formal dos românticos dos sec. XVIII e XIX e sua capacidade de realização artística, não há diferença essencial entre eles e os malucos-beleza do nosso século.
Quanto ao poema de Érico Nogueira, o décimo-oitavo da série que compõe Dois, não chega a ser um caso deliberado, como o de Catalão. Afinal, a pauta musical ou os motivos são determinados pela série Elegias romanas, de Goethe. Isso, porém, não impediu que o primeiro verso(Serrotes, chaves, chaves e martelos;) siga exatamente a mesma música e ritmo de Nel mezzo del camin”, também de Olavo Bilac:

 [CheGUEI.] [CheGASte.]    [VINhas]   [ fatiGAda]
 [SerRO]       [tes, CHAves,] [CHAves]  [e marTElos;]

São quatro blocos com marcações bem fortes na segunda, na quarta, na sexta e na oitava sílabas.**  A sonoridade algo staccato de ambos - e que se prolonga de forma bastante reiterativa, apesar dos deslocamentos acentuais, nas estrofes seguintes, principalmente nas do poema de Érico Nogueira - reproduz o som ofegante, da fadiga. No poema de Érico, porém, o som ofegante reproduz o ato sexual. Ademais, o clangor dos primeiros versos encontram uma ilustração eloqüente nos engenhosos versos da última estrofe(Armaduras de membros desiguais,/insistindo na cópula impossível,). Observe-se que esses últimos versos têm uma ordem de relação com os do último terceto do soneto de Bilac. (E eu, solitário, volto a face, e tremo,/ Vendo o teu vulto que desaparece /Na extrema curva do caminho extremo.)
Há que se reparar também neste impressionante Fiat lux que só aquele que tem moral com as Musas poderia conceber:

A noite derreteu quando, amarela,
a voz do dia “fogaréu” gritou:

Todo o poema é um símile de um maquinário em pleno funcionamento numa fábrica abandonada, que não atinge um fim, como o ato carnal de que seus versos falam.
Ambos são, ao seu modo, poemas sobre desencontros. O soneto de Bilac, um desencontro não previsto por aquele que recusou a enxergar a fugacidade da mulher amada, que a idealizou, que acreditou ser a alma gêmea, aquela sobre a qual as melhores expectativas foram construídas e com a qual se projetou um sonho maravilhoso (Tinhas a alma de sonhos povoada,/E alma de sonhos povoada eu tinha...). A voz do poema de Bilac não é muito diferente do temperamento daquele que Machado de Assis, de forma jocosa, em Ressurreição, chama o “homem de espírito”:

As mulheres são para ele entes de mais elevada natureza que a sua, ou pelo menos ele empresta-lhes as próprias idéias, supõe-lhes um coração como o seu(...)

Quanto ao poema do livro Dois - que faz parte de uma galeria avessa a idealizações românticas, ainda que seja em nome da beleza - o desencontro não é uma traição das expectativas, não é acidental, é essencial mesmo, não havendo por isso espaço para decepções,  como o mostram os dois primeiros versos já citados, além destes da penúltima estrofe do poema que encerra a série:

Pólos contrários de aquoleoso ímã,
os olhos se abraçaram sem se unir,
como sons que dissoam numa rima e
não se fundem num só – um lá, um aqui.



* Isso mesmo, é uma escultura parnasiana com conteúdo romântico. Aliás, os poetas românticos eram ótimos escultores do verso. Os parnasianos, por sua vez, sabiam como delirar por meio da mais bela estatuária das idéias.
**Concedamos que os esquemas rítmicos e métricos possam ser contados nos dedos, de modo que poeta algum conseguirá compor algo fora deles. Mesmo em textos poéticos que geralmente não são vistos como tais, devido à atenção obsessiva que se dá a seu conteúdo, por exemplo, um conteúdo sacro, acaba de um modo ou de outro participando desses esquemas. Tal é o exemplo da tradução de dois trechos soberbos do igualmente soberbo “Livro de Jó”: “Ou quem assentou sua pedra angular”(38,6) e “Ou viste os porteiros da terra da Sombra?”(38, 17). O primeiro exemplo pode ser encontrado tanto em Matos Soares como na Bíblia de Jerusalém; o segundo, na de Jerusalém. Esses trechos estão rigorosamente dentro do esquema da Arte Maior: o mesmo, por exemplo, de “No meio das tabas de imensos verdores”, de Gonçalves Dias; ou ainda, “Não foi explosão demográfica nada”, do próprio Érico Nogueira, ou seja, com acentuações na segunda, na quinta, na oitava e na décima primeira sílabas, e com a mesma “música”.

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