quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Série A Indesejada das gentes: "Que Deus guarde meu pai...", de Antônio Brasileiro


Não passar. Ficar para semente.

Não era isto que meu pai queria?
Sentava-se na rede e adormecia
julgando ter domado a dama ausente.

E sonhava talvez. Talvez menino
montando burros bravos, nu, ao vento;
um homem é a sua ação sobre o destino.

Meu pai então fazia um movimento
e a rede, a adormecer, estremecia:
pequenos sustos no tempo, era só isto.

E escancarava os olhos duramente
para mostrar que se Ela o procurava
era de cara a cara que a encarava.

Que Deus guarde meu pai. Eternamente.



Com esse poema de Antônio Brasileiro inicio a série A Indesejada das gentes. Nada inspira e favorece mais a beleza que a morte. O medo da morte que é a origem de grandes desastres do espírito humano é responsável, por outro lado, pela boa poesia.
É uma narrativa escrita não ao modo das baladas cuja construção sintática se desenvolve acompanhando o fio das histórias que contam. Mas, sim, pela sugestão, pela elipse – que não é propriamente sintática – que joga com a perspectiva das percepções. Refiro àquilo que apenas o moribundo percebe e não é bem compreendido pelo filho ou simplesmente esse elabora uma fantasia, conferindo ao estertor da morte uma batalha na qual seu pai ainda tem alguma chance de sair ileso.
O poema pode ser dividido em duas partes formalmente bem definidas. Do primeiro ao sétimo verso, enquanto uma fantasia idílica se sobrepõe à agonia paterna, os versos são leves, corredios, e seguem o ritmo balouçante de uma rede. Experimentem declamar este verso: “E sonhava talvez. Talvez menino”. Percebam que tem algo de suspensão, parece até que a gravidade vai aos poucos cessando... Um verso que é, nas palavras de Shakespeare, “such stuff/ as dream are made on”. Do oitavo em diante, essa leveza cessa aos poucos: primeiro, temos uma sutil vibração sugerida pela palavra “estremecia”, que encerra o nono verso; em seguida, a musicalidade galopante dos versos anteriores é subitamente interrompida por um verso que não parece se encaixar no conjunto (pequenos sustos no tempo, era só isto.), um verso parentético. Afinal, o que é um susto senão um momento parentético em nossa vida?
(Tudo está tranqüilo, estamos caminhando tão despreocupadamente, como se estivéssemos aos poucos saindo da calçada para entrar nos nossos próprios pensamentos, nas nossas próprias fantasias, quando de repente tropeçamos, xingamos a pedra para em seguida retomar a caminhada, voltar a nos distrair, depois tropeçar em outras pedras até que de repente nos batemos numa grande rocha.)
Após os nossos ouvidos e o verso serem feridos pelo “pequenos sustos no tempo”, a graciosidade da primeira parte é retomada, porém com mais densidade. Se o verbo escancarar não desarmoniza  o verso como “pequenos sustos”, por outro lado, esse verso fica entre hesitante e tenso. Uma vez lida a conjunção, parece sermos levados a nos demorar no verbo(E escancarava) que a segue, como se estivéssemos atravessando um hiato de britas  numa estrada plana: a sucessão de “C”, mais o R vibrante, formalmente, é um princípio de um engasgo.  A coisa está ficando feia aos olhos do testemunho romântico.
No verso seguinte, o ritmo inicial volta com sua integridade. Eis o problema: é apenas aqueles segundos em que se respira aliviado antes de no próximo verso os C mudos e as vibrantes se multiplicarem reproduzindo o estertor, após o qual surge o verso que recupera a leveza do início ao mesmo tempo assumindo também a leveza do “descanse em paz”.
É certamente um soneto “esticado”, que sonha com a imortalidade. Da mesma forma que tomamos remédios, fazemos exercícios, passamos a comer alfaces, tomar coca-cola zero e herba-life a partir dos cinqüenta(ou a partir dos dezoito), na esperança de prolongarmos os limites que nos restam, o soneto se desdobra. Dois quartetos e dois tercetos parecem ser muito pouco e denunciam nossa curta vida: o que custa sonhar um pouquinho e então desdobrá-lo em quatro tercetos entre dois versos isolados? Tudo bem, o poema continua com quatorze versos. Ao menos teremos a doce ilusão de viver um pouco mais dentro de um prazo inegociável.


Um comentário:

  1. Caro Jessé,

    Este soneto é Belíssimo e por ser Belo assim se mostrará sempre. Isso sempre me faz lembrar César Leal, em Os Cavaleiros de Júpiter, segundo ele “o elemento protéico do soneto é o pensamento reflexivo”, mesmo quando este “alcança uma ordenação mágica como é freqüente em Jorge de Lima”. É, no soneto, que conhecimento, ciência e instrução geral se fundem com legitimidade, por isso mesmo, no Modernismo, apesar do descrédito e difamação de muitos, o soneto se aperfeiçoou, tornado-se, inclusive, “independente e diverso em relação aos modelos clássicos” – afirma César Leal –, apresentando – ainda de acordo com o poeta e ensaísta pernambucano – “traços estilísticos inconfundíveis”, como são os casos de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Vinícius de Moraes, Bruno Tolentino, Sosígenes Costa, Mário Quintana, Emílio Moura, Ariano Suassuna, Dante Milano, Ildásio Tavares, Carlos Pena Filho e até mesmo Carlos Drummnd de Andrade e Ruy Espinheira Filho... isso sem falar no pioneirismo de Augusto dos Anjos e em autores menos conhecidos, ou, naqueles, onde a tradição do soneto não acompanha a obra do autor, embora por lá se encontrem exemplos magníficos como os de Edmir Domingues, Florisvaldo Mattos, Maria da Conceição Paranhos e ainda, mesmo que escassos, Ferreira Gullar e Hilda Hiltz, além de Reynaldo Valinho Alvarez (cuja máxima intensidade de sua poesia, como você mesmo sabe, é justamente alcançada em seus sonetos peculiaríssimos), entre outros tantos que agora me escapam à lembrança.

    Silvério Duque

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