segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Prefácio ao romance "As almas que se quebram no chão", de Karleno Bocarro


Eis que a queda do muro de Berlim propiciou o advento do novo homem: as viúvas do muro. Muitos ao se verem diante de tal notícia se perguntaram o que fazer, qual o sentido da vida, se valia a pena viver neste mundo em que o mercado dita as regras e que deu um golpe nas utopias.
Muitos chegaram a culpar o conluio do saudoso Papa João Paulo II com o então igualmente saudoso presidente dos EUA Ronald Reagan pela queda desse sonho de concreto que protegia os alemães conscientes, “válidos e inseridos no contexto”, daquelas  pessoas insensíveis e alienadas que comiam no Mcdonalds e lotavam os cinemas para ver Silvester Stallone e Schwarzenegger oprimindo os pobres vietnamitas.
Poucos anos depois um diretor canadense exprimiu suas dores contra a invasão dos bárbaros, que são umas criaturas bem sucedidas cuja alta periculosidade reside na crença de que apenas a iniciativa individual e a inventividade podem tornar sua vida melhor e, de modo ainda mais perigoso, desmoralizam a caridade estatal. Como se não bastasse, os velhos comunistas, com o fim das utopias, mergulharam nas drogas e nos prazeres hedonistas, e se contaminaram com AIDS, uma doença burguesa.
Moral da história: enquanto se acreditava nas utopias o homem estava no bom caminho, livre de todo o mal.
Por outro lado, se caiu o muro ou o comunismo estatal, ficou o comunismo do coração, aquele que mundo capitalista algum, com todas as suas tentações, pode arrancar. Mesmo que as verdades ao seu respeito sejam comprovadas é tudo sempre uma conspiração dos inimigos do sonho; resta o consolo de pensar “era a única alternativa”.
Qualquer semelhança com um pacto mefistofélico não parece ser mera coincidência... Apesar desse preâmbulo, o romance que ora apresento, de Karleno Bocarro, As almas que se quebram no chão, título este tirado de um poema de Karl Marx que lhe serve de epígrafe, não pode ser reduzido a mero panfleto de oposição contra os vermelhos. Não é um comentário ao comunismo em si mesmo ou às esquerdas: é de fato uma narrativa com todas as virtudes literárias, em que as idéias são sugeridas não por construções teóricas, mas por acontecimentos.
A distribuição desses acontecimentos, a forma como são interrompidos para dar espaço a outros e a forma como retornam nos momentos mais improváveis sem que o leitor se perca revelam uma habilidade narrativa impressionante.
Pela leitura deste romance, do qual boa parte da história é ambientada na Alemanha Oriental, principalmente nos meses que sucedem a queda do muro, conhecemos uma galeria tão imprevista quanto a própria realidade: Marco é uma das personagens mais engraçadas e também mais tristes com que podemos nos deparar: um sujeito infantilizado e oportunista que, tendo ido à Alemanha Oriental graças ao apoio financeiro do partidão, só pensa em se dar bem com as mulheres alemãs, ao mesmo tempo em que não se esforça em se ambientar ao mundo europeu e aprender a língua local, além de alimentar um sonho vago de ser escritor e deixar seu nome na história.
Compõem também essa galeria, entre outros: Barad, um brasileiro de origem nordestina que, embora empenhado em realizar seus projetos e mais integrado ao ambiente europeu, não consegue ver as pessoas senão como personagens de um possível livro; e Dias, um exilado da ditadura que exagera o poder do finado regime militar como um recurso desesperado para mostrar que tem alguma importância, autor de uma curiosa versão do Manifesto Comunista para metalúrgicos do ABC.
E é através de Dias, numa situação tão constrangedora quanto inusitada, que a nós e a Marco é introduzida outra personagem marcante: Bocas, que foi estudar na antiga União Soviética e, com o colapso do regime comunista, se muda para Berlim, onde, sem qualquer escrúpulo, passa a explorar a curiosidade que o europeu tem com relação ao exotismo brasileiro e, de modo igualmente inescrupuloso, explora Marco, que não consegue esboçar uma reação firme e adequada. Marco, apesar de ser um oportunista, não tem fibra para tirar vantagens dignas desse nome, ou, nas palavras de Machado de Assis, é “uma alma ardente e frouxa, nascida para desejar, não para vencer, uma espécie de condor, capaz de fitar o sol, mas sem asas para voar até lá”.
Podemos perceber algo curioso na natureza da relação de Marco com Bocas, a qual é semelhante à relação dos intelectuais com o comunismo e, pois, uma relação de natureza mefistofélica em que o sujeito, tendo se comprometido demais com a causa, não consegue encontrar uma saída. E o que é pior, teme encontrá-la, e recusando-se a vê-la, sempre inventa uma justificativa para manter o pacto com o que lhe parece odioso, mas que ao mesmo tempo lhe dá um significado à vida, por mais que testemunhe coisas que contrariem tudo aquilo em que acreditavam suas boas intenções. 
Não dá para afirmar que o autor pensara nisso, mas é muita coincidência que Marco tenha uma relação tão duradoura com alguém que veio da Rússia, um país que espalhou seus erros para o mundo. Mais curioso ainda, o que mostra a eficácia da narrativa é que algo dessa natureza seja percebido não na descrição de dois militantes, mas através de uma personagem alienada (diz um velho jargão) e oportunista, e através de Bocas, figura hedonista como Marco, porém com mais sucesso.
O livro é a história de projetos que não se concluem, de ambições jamais alcançadas, de pessoas que se tornam títeres das circunstâncias, e que, eternamente deslocadas, não encontram conforto senão em suas pequenas misérias. Pessoas para as quais a solução dos seus problemas é um problema ainda maior, que as anula por completo.
Finalmente, a relação entre o desabamento de um projeto utópico (a derrocada do comunismo estatal) e a vida pela metade das personagens, como se um revelasse a natureza do outro, é uma das grandes riquezas deste romance. E a impressionante capacidade de percepção do autor nos põe diante de personagens bastante convincentes: como nos romances de Dostoiévski, rimos com elas, rimos delas e nos sentimos constrangidos por nos vermos um pouco como parte dessa galeria.

3 comentários:

  1. Caríssimo em Cristo Jessé,

    Que notícia alvissareira esta da criação de teu blog.
    Sei que nós, leitores, sairemos ganhando com tuas análise sempre muito precisas, e atentando para pontos que, num primeiro momento, poreriam passar despercebidos ao leitor.
    Desejo-te muito sucesso e que teus ensaios, de tempos em tempos, possam ser reunidos num livro.
    Parabéns e um grande abraço,
    Elpídio

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  2. Muito obrigado, meu caro, pela força. Agora é seguir em frente. Abraços

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  3. Que boa notícia, Jessé. Um grande abraço e vida longa à vc e ao blog.

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