sábado, 18 de dezembro de 2010

Música das Idéias-Bruno Tolentino e Cecília Meireles

Visita de Finados-Bruno Tolentino

Pedra rasa, sem pergunta.
Líquens e limos em torno.
E as palavras uma a uma
abolidas, como o corpo.

Leve sopro. Lume breve.
Tudo dar apenas nisto:
choro extinto, lábio inerte.
Desapego. Desperdício.

E um vago vento por cima,
passando, que tudo passa.
A tênue sombra votiva
de sequer deixar-se marca.


Noite-Cecília Meireles

Úmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavada,
tempo inseguro do tempo! –
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.

Brilho de areias pisadas,
sabor das folhas mordidas,
lábio da voz sem ventura! –
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.

A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
- sozinha, com o seu perfume! –
procurando a flor mais pura
com ares de todos os lados.

Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.


Visita de finados”, de Bruno Tolentino, é de 1959 e foi publicado pela primeira vez em Anulação e outros reparos(Massao Ohno), de 1963. Esse livro foi bastante transformado ao longo dos anos. Teve sua origem num volume (não publicado) intitulado Sete claves que é de 1959 e concorrera ao prêmio Revelação Autor no mesmo ano, e tinha algo como umas duzentas páginas a mais que a edição de 1963, que tem noventa e quatro.
Em 1998 foi reeditado pela editora Topbooks, edição essa que recupera mais ou menos a quantidade de páginas dos originais enviados para o concurso em 1959.
O próprio poema em questão sofreu algumas modificações. Além da mudança nas pontuações(e no título que no original era simplesmente “Visita”) que em nada alteram o ritmo e a prosódia, o substantivo “líquens” que abre o segundo verso substitui o adjetivo “lívidos” do original. A acentuação se manteve apesar da mudança. O substantivo “líquen” reforça, creio, o clima de “enterrado vivo”. ( Sim, a perspectiva do poema é de quem está morto.) Por outro lado, gosto ainda mais de “Lívidos limos”. Os encontros dos dois “li” se dão como num elegante salto em arco por cima do “vi”, sem o freio imposto pelo “q” de “líquen” e a conjunção seguinte. Por outro lado ainda, seria algo muito serelepe para um poema sobre quem está enterrado... deixem para lá.
O poema de Cecília Meireles foi publicado no seu Viagem, de 1939. Depois foi unido ao Vaga música, de 1942.
Gosto muito daquilo que Ricardo Reis, numa disputa literária com Álvaro de Campos, chama de “a música que se faz com as idéias”. Provavelmente, salvo meu impulso hiperbólico, a melhor definição de poesia. Cada poema tem uma melodia específica. Há poemas, eu diria, que simplesmente podemos solfejar: experimentem solfejar, por exemplo, o famoso “O amor é fogo que arde sem se ver”(Não vale cantar a música de Renato Russo), de Camões; ou o primeiro verso com o advérbio que abre o verso seguinte(hipérbato é isso aí. O ouvirudum perde) do “Soneto de fidelidade”, de Vinícius de Moraes; do mesmo autor, repitam o experimento com o “Soneto da separação”.
Esse é um caso especialmente curioso. Quem quer que o solfeje acabará, mesmo que nunca tenha ouvido antes, reproduzindo exatamente a mesma melodia da música que Tom Jobim fez sobre o poema. Esse foi, por sinal, o fracasso musical de Tonzinho. Apesar de o poema ser um tanto insubmisso à pauta musical, Jobim foi em frente e nada mais conseguiu que reproduzir em notas a prosódia natural do poema, acrescentando-lhe um acompanhamento de um piano e de uma orquestra. Podemos, por outra, dizer que Jobim empreendeu o mesmo esforço didático de Northrop Frye que nas primeiras páginas de seu Anatomia da crítica nos apresenta a pauta da primeira estrofe de The Canterbury tales, de Chaucer.
Se fiz essa digressão é porque os poemas de Tolentino e Cecília têm tudo a ver com isso. Estava eu em meu lar doce lar - pensando na morte da bezerra - e lendo ao acaso o volume de Cecília Meireles, quando me deparo com “Úmido gosto de terra,”. Pensei logo: “conheço isso de algum lugar”. Fui adiante: “cheiro de pedra lavada,” e mais adiante... até que me veio à memória: “Pedra rasa, sem pergunta./ Líquens e limos em torno.” Isto que é interessante: apesar de ser o mesmo tema, é a pauta do poema que nos faz lembrar outro. Gosto disso.
Ambos são formados por versos que reproduzem um ritmo reiterativo.(A medida também é a mesma: redondilha maior.) Ou seja, todos os versos, com poucas exceções, seguem exatamente a mesma linha melódica, como acontece com Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.


No poema de Cecília essa reiteração é mais evidente. Todos os versos que são iniciados com tônicas têm um segundo acento na quarta sílaba. Isso segue com regularidade na primeira estrofe, e se prolonga com exatidão até o primeiro verso da estrofe seguinte. O segundo verso dessa estrofe, afinal, tem sua primeira tônica na segunda. Por outro lado, preserva o acento da quarta. O verso que o segue retoma exatamente a acentuação inicial. Daí em diante ocorrem as variações acentuais que não ferem o aspecto reiterativo.
Quanto ao poema de Tolentino, segue a mesma musicalidade do poema de Cecília sem necessariamente seguir a mesma acentuação. E apesar da mobilidade tônica, o aspecto reiterativo se mantém. O contrário também podemos observar. Basta saber que há poemas que seguem rigorosamente a mesma acentuação de outrem sem com isso reproduzir a mesma melodia: When I do COUNt the CLOCK that TELLS the TIME, de Shakespeare, é o mesmo pentâmetro iâmbico do seu to BE or NOT to BE, that IS the QUEStion. Porém, a batida regular do relógio do primeiro não encontra eco na melodia mais hesitante do segundo. Também ambos não são ecoados(considerando as semifortes) por De TUdo ao MEU aMOR seREI aTENto.
Para além da mobilidade tônica que não impede que o poema de Tolentino seja uma emulação do poema de Cecília, há também outro caso interessante: ele emula em quadras o que Cecília faz em quintilhas. É o mesmo esquema que ele seguiu quando reescreveu para o vernáculo alguns de seus poemas ingleses, entre os quais “Annunciatory Angel” com trinta e seis versos distribuídos em sete estrofes irregulares que no “Anjo anunciador” se desdobra em cento e um versos distribuídos em nove estrofes, igualmente irregulares.
Antes de encerrar esta peroração, gostaria de acrescentar que quando me deparo com estas imagens:"Úmido gosto de terra,/cheiro de pedra lavada,”; “Líquens e limos em torno” e “Um vago vento por cima”(sem esquecer o título “Noite” que reproduz a condição visual tumular), devo dizer que a sensação claustrofóbica causada pelos poemas é uma experiência estética sem precedentes. Por outro lado, ser enterrado vivo ou ser um morto com consciência do seu estado não deve ser tão bom assim.


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