terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Indesejada das gentes II-Ferreira Gullar


DA MORTE SEM RETÓRICA

Visita

no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

         Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando

Ferreira Gullar, in Muitas vozes(1999)


Ferreira Gullar é uma figura peculiar no meio poético. Ao contrário da imagem que se construiu do poeta ao longo dos séculos, talvez herança romântica, a imagem desse e sua poesia não se confundem: geralmente ou são figuras prosaicas ou impressionam pessoalmente, mas não têm “cara de poeta”. Exceto, uma ou outra pessoa caricata, não podem ser incluídas na categoria de “devaneios ambulantes”; não saem por aí falando de flor e passarinhos; não batem palmas para o pôr-do-sol; não substituem uma cantada por uma declamação, e não têm cara de Carlos Minc.
Alguns sequer se apresentam como tais. Acrescento que a própria poesia não é devaneio, é um produto da inteligência, não – como bem disse Merquior – “do músculo cardíaco”. Mesmo que o faça palpitar. Bruno Tolentino, por exemplo, era capaz de conversar horas e horas com pessoas desconhecidas que saiam dessa conversa sem saber que conversaram com um dos maiores poetas que este país já teve. Já ouvi dizer que o mesmo acontecia com Manuel Bandeira. Enfim, são pessoas que pagam impostos ou sonegam, têm família e papagaio, estudam ou ensinam, saem com os amigos para tomar chope e não perdem uma novela das oito.
Voltando a Gullar, é alguém em que a poesia e pessoa se confundem. Não que ele pessoalmente fale de poesia e de seu conteúdo o tempo inteiro. Na verdade, não estabelece uma hierarquia com relação àquilo que pensa, diz e compõe. É meio que difícil de se estabelecer se aquilo que compõe é uma conversa ou pensamento ou uma ars poetica; se aquilo que conversa já é uma composição... enfim, morrerei sem saber o que é isso.
Lembro-me que Bruno Tolentino numa conversa sobre Gullar me disse que todo poeta tem um truque: até Adélia Prado tem um, exceto Ferreira Gullar. Nesse aspecto, ninguém de que já ouvi falar alcança sua integridade: o homem e a poesia se intercambiam de tal modo que desistimos de pensar sobre o assunto, ou sequer começamos... No que respeita a truques, também não exageremos. Nem toda poesia gullariana é feita disso. Em Barulhos encontramos um poema em que fala de dois Narcisos que

(...)se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Um poema com as mesmas ginásticas verbais que encontramos em Pessoa ou em Drummond. Verso livre com a mesma propriedade de um verso medido, rimas internas e o escambau. Isso sem contarmos o deslumbrante “A nova concepção da morte”, um poema com vinte e oito dísticos alexandrinos, formados por sua vez por uma pletora de enjambements e de períodos que se elaboram indefinidamente, mas sem perder o ritmo, sem enfraquecer em momento algum, e que é também de Muitas vozes, como o poema que introduz este presente comentário. O sujeito é íntegro no oito e no oitenta.
“Visita” é um poema sobre o filho. Filho esse que o levou a fazer a declaração mais lúcida contra as drogas. Numa entrevista, o repórter – na expectativa de que o poeta dissesse algo positivo sobre o assunto(todo poeta é maconheiro?) – perguntou se era a favor da liberação das drogas. Ao que Gullar simplesmente responde: “sou contra porque meu filho morreu”. Não racionalizou, não teceu teorias sobre as propriedades nocivas das drogas em geral. Simplesmente isso: “meu filho morreu”.
O impacto dessa resposta não me soou tão diferente da poesia que acima estampei. Como vêem, uma resposta tão crua quanto “Visita” é sem truques: um texto que começa e termina entremeado apenas de um deslizamento num espaço sem nenhum obstáculo, sem nenhum relevo(exceto pela aliteração, creio que acidental, “pedra impenetrável” que sugere a imagem daquilo que diz); um verso livre sem sequer um reiteração rítmica, um mísero leitmotiv, simplesmente diz e está dito. É como se não houvesse diferença entre uma idéia para um poema e um poema já pronto, acabado... e ainda assim, é poesia. Cada uma das duas partes tem uma carga emotiva brutal: a primeira, a de que o único lugar que o deixa mais perto do filho é o mesmo que mostra o quão inalcançável está; a segunda, a fragilidade de um gesto está na razão direta da intensidade tocante de um amor paternal.
Sinto que fui redundante no período final. Mas pergunto: o que dizer sobre um poema que de tão despido é intenso?

3 comentários:

  1. Para mim, Gullar, se não for o nosso maior poeta vivo, acima inclusive de Lêdo Ivo, pelo menos está entre os três melhores. Belíssimo ensaio, prazer em conhecer. Finalmente poderei acompanhar fatos e coisas sobre a literatura brasileira (e universal, por que não) com qualidade e lucidez.

    Abraços Jessé, meus parabéns.

    Paulo.

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  2. Seja bem vindo, meu caro. Obrigado pela sua presença no blog. Abraços e tenha um Feliz Ano Novo.

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  3. Gullar para começar o ano tá de bom tamanho, com ou sem redundância. Abçs, amigo!!!

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