terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Da felicidade e um poema



 
“(...)se virarmos a cara ao sofrimento, a vaidade da felicidade perfeita nos levará à monstruosidade e ao crime.”
          Sophia de Mello Breyner Andresen


O amor não está na estrela
que, ao cair, carrega o pedido sussurrado,
está no olhar que a percebe  e espera.

O amor não está nas cartas
lançadas sobre mesas postas,
está na tensão de quem as ouve e deseja.

Búzios, números e datas
não contém o amor,
ele não está numa procura.

Rezas, promessas e velas
não trazem o amor,
só a esperança de encontrá-lo.

Mas, ninguém encontra o amor,
ele é(misteriosamente) despertado...
num momento de distração e abandono.

In Escondedouro do amor & outras esperas(Prêmio de Literatura da CDL, 2008-Bahia)

Como são tristes e fazem entristecer aqueles que buscam a felicidade. Esse poema de abertura da série “Escondedouro do amor”, de Nívia Maria Vasconcellos, é uma perfeita compreensão disso. Machado de Assis também tratou do assunto quando criou a personagem Camilo do conto "A cartomante". A personagem sente-se muito  feliz com as boas notícias dadas pela cartomante e é brutalmente assassinada. Tal protagonista, por sua vez, em nome da felicidade, é o mesmo que destruiu o casamento de seu amigo de infância. Esse conto, diga-se de passagem, é uma análise muito lúcida do espírito romântico: como a felicidade lhe escapa quanto mais a busca, e não compreendendo que é algo que se manifesta “num momento de distração e abandono”, tudo à sua volta começa a morrer.
Na segunda parte do Escondedouro uma voz donjuanesca faz a quem busca o prazer uma pergunta bastante reveladora:
           
  Teu sofrimento vale a pena
             Pelos instantes de céu que te concedo?

Como a busca do amor se confunde com a busca da felicidade, podemos, sim, dizer que é da própria felicidade  que o poema de Nívia Maria trata. É um poema que se encontra, devo dizer, noutro extremo do que aprecio na poesia: sua falta de truques. Só as mulheres e Ferreira Gullar conseguem essa proeza. Seu fraseado é limpo e elegante. Suas metáforas e o próprio objeto se confundem. Esquecemos que nos deparamos com elas. Não poderia ser de outra forma, uma vez que metáfora é um modo aproximativo de linguagem.
Esses tercetos brancos e livres (exceto pelos três pés iâmbicos dos versos que abrem os dois primeiros tercetos e do movimento dátilo que abre o quarto – What fuck!, verdadeiros poetas não conseguem ser livres nem debaixo de porrada.) cujas palavras repousam em lugares não previstos pelo metrônomo – mas se encaixam perfeitamente onde se encontram – é uma modalidade do light verse e é nessa leveza que um realismo sem jaça mais se manifesta.   Para encerrar, fiquemos com um trecho de uma crônica de João Pereira Coutinho, que também trata do assunto e muito acrescenta ao que procurei dizer sobre o poema de tal modo que lhe poderia servir de prefácio:

Mas, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, Comer, Rezar, Amar não é apenas uma brilhante nulidade como objeto fílmico. É, pior que isso, mais um tratado desonesto sobre a natureza da felicidade.
Não tenho tempo nem espaço para elaborar longamente sobre essa natureza. Mas sempre digo que a "felicidade" não é um lugar a que se chega; nem sequer é um "estado de espírito" que seja possível manter pela eternidade. É, tão somente, aquilo que existe quando não estamos a pensar no assunto.
O que significa que ela é temporária, intermitente e, na maioria das vezes, contingente. Não se procura; encontra-nos. Estar preparado e grato para esse encontro já é um milagre da existência. Exigir mais é, paradoxalmente, uma forma de nos condenarmos à infelicidade.
Mas nada disso se aplica ao caso de Liz. Quando a vemos, no final do filme, viajando de barco a caminho do pôr-do-sol, lembramos imediatamente a velha frase de Flaubert sobre as felicidades eternas. “Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde são três requisitos para a felicidade, mas se a estupidez faltar está tudo perdido.”
Por aquilo que vi de Liz, posso garantir que o futuro dela será risonho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário